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5 de set de 2008

Mais Circo que Pão

O primeiro passo para revelar intolerância contra a corrupção, a que assistimos todos os dias, é uma expressão de susto, uma frase surpresa, um ruído de desgosto. Talvez, eu esteja um pouco surda ou meu problema de vista tenha piorado, mas percebo que a sociedade se abala bem menos diante da impunidade, exposta nos diversos meios de comunicação. Noto que um sentimento de banalidade face aos fatos encontra considerável espaço para existir.

Geralmente, encerradas dentro de uma política vigente, as formas de obter privilégios ilegais inseridos na administração pública se tornam cada vez mais fáceis e atrativas. Sim: a-tra-ti-vas. Uma pesquisa do IBOPE aponta que 75% dos brasileiros admitiram ser capazes de cometer irregularidades, se exercessem cargos públicos. O resultado só comprova que o “jeitinho”, trazendo vantagens para si ou para amigos e familiares, está arraigado na cultura do Brasil e passa a ser considerado normal, desde que benéfico para quem o faz.

Proveniente de raízes portuguesas, a corrupção encontrou solo fértil para se proliferar no massapé de nossas terras. E como uma bactéria, que cria resistência, ao longo dos anos, alastrou-se pelo resto do país. É assustador até tomar ciência que o próprio catolicismo cultivava uma conduta nada exemplar no passado, influenciando os pecadilhos da atualidade.

E buscando sentido para a ‘moda brasileira’ de não recorrer aos meios legais, emergem-se razões, na tentativa de justificar alguns de nossos atos, como o sentimentalismo do nosso povo: o complexo do “coitado”; a constante solidariedade e a simpatia, que são postas acima do ordenamento jurídico; o apelo ao bom senso e às formas mais fáceis de conciliações; a fuga de uma burocracia peculiar; e, principalmente, o artifício hierárquico, acompanhado da frase tão conhecida: “Sabe com quem você está falando?”. As próprias desigualdades sociais são uma forma de progredir com o “jeito”, visto que, mesmo com a Constituição declarando igualdade a todos, o “status” e as ligações pessoais ainda interferem na efetiva aplicação da lei.

Talvez, haja motivos suficientes para se fugir um pouco da legislação, que nos limita o agir, e facilitar o trâmite das ações. Mas não há motivos para se perdoar um político corrupto. Uma visão um pouco contraditória, mas vigente. Parece que é sempre mais cômodo ser moralista do que ser ético. Falar dos outros é mais fácil do que agir de forma exemplar. Costumamos nos explicar através do grau de ilegalidade: sempre estamos no patamar mais baixo. “Ah, que é isso!? Eu só comprei uns Cds piratas...”. Só. Apenas... Enraizou.

Isso me lembra Roma em seu processo de crescimento, a chamada política de “Pão e Circo”, imposta pelo Imperador, buscava fazer com que a sociedade se esquecesse dos seus problemas, contendo-se em assistir às lutas de gladiadores no Coliseu. Só que, no caso do Brasil, denomino “Mais Circo que Pão”, onde nós mesmos somos os palhaços e nosso ‘pão jeitoso’ é o que nos impulsiona para cima (ou para baixo?).

Precisamos escolher, urgentemente, de qual lado queremos estar: na platéia, assistindo a tudo, de braços cruzados, ou no Ato principal, de nariz pintado, sofrendo de amnésia a respeito de seus direitos de dignidade, previstos na Constituição. Não agradou nenhum dos papéis? Parabéns! É só sair do Circo.

Sara Albuquerque.

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Além disso tudo, o que mais entristece é escutar: "se eu ou vc estivesse lá roubariamos também".

Infelizmente o que seria moral, tornou-se imoral na nossa sociedade.

isso chama-se bestialização!!

é complicado enumerar os fatores q deixm nossa população assim, mas arisco a dizer q um dos grandes influenciadores dessa cultura de merda é a televisão que vende essa imagem de poder e dinheiro é tudo a qualquer preço.