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24 de set de 2008

A Vergonha de ser Honesto

“Aos políticos e às pessoas de boa vontade de minha terra”.

A casa em que morávamos, na Rua Correia de Oliveira, onde hoje é a Casa de Cultura Palmarina, no centro de União dos Palmares, é uma casa comprida, de muitos cômodos e um grande quintal. Foi lá que vivi minha infância e morei até os vinte anos de idade.

Se o quintal do casarão era pra mim um mundo livre, com muitas fazendas cheias de boizinhos de barro do Moquém, usinas que chiavam e apitavam como a Lajinha, circos iguais ao Fekete e ao Copacabana de Alda Lima e alto-falantes que imitavam o do primo Juca Sarmento, o escritório do meu pai era um mistério dado ao cuidado que ele lhe dedicava e a curiosidade que me despertava. Percebo, hoje, que na realidade era tudo muito simples: num canto da sala uma estante abarrotada de grossos livros cheios de leis que me davam preguiça até de um olhar de relance e seus títulos em latim que me lembravam as intermináveis missas do Monsenhor Clóvis na antiga Matriz de Santa Maria Madalena. No centro da sala a escrivaninha e, conjugada a ela, uma pequena máquina de escrever. Sobre a mesa de trabalho, arrumado num canto, um porta-retrato de Getúlio Vargas e na parede, por trás da mesa, uma grande foto do seu avô (e meu bisavô) o Coronel Salustiano Sarmento, cuja fisionomia séria e grande bigode sugeriam realmente todo o respeito e coragem que diziam possuir o miliciano que por mais de quinze anos e até morrer, fora comandante da Polícia Militar de Alagoas.

Mas um pequeno detalhe no escritório do meu pai me chamava sempre a atenção. De frente à escrivaninha, geralmente imperceptível a quem entrava na sala, havia um quadro com as frases de Rui Barbosa: “De tanto ver triunfarem as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter VERGONHA DE SER HONESTO”. Ter VERGONHA DE SER HONESTO!!! Estas últimas palavras intrigavam-me sempre. Por que haveria alguém, principalmente o grande Rui Barbosa – que já aprendera, desde a primeira escola ser “o homem mais inteligente do Brasil” – envergonhar-se de uma das mais lindas virtudes da pessoa humana? Por muito tempo, na minha mente de menino puro procurei, em vão, as respostas para essa pergunta.

Pois bem! Paulo de Castro Sarmento, meu pai, era um homem inteligente e culto. Professor, jornalista, poeta, advogado, promotor de justiça, orador impressionante. Contrastava sempre com a pessoa simples, alegre e de espírito humilde que foi. De muitos amigos, tinha pelos mais pobres uma atenção e respeito muito especiais. No auge de sua carreia jurídica foi um dos mais atuantes advogados da terra e geralmente em defesa de pobres injustiçados. Perdeu o número de compadres e afilhados que ganhou como paga desses constituintes pelos seus trabalhos. Amava tanto União dos Palmares que às vésperas de sua morte foi difícil para os amigos Antônio Gomes de Barros (deputado), Antenor Uchôa (prefeito) e Maria Mariá (irmã), convencê-lo a ir para Maceió, pois sabendo ser irreversível o seu precário estado de saúde “preferia morrer em União”. Coincidentemente faleceu no dia 13 de outubro (emancipação política dos palmarinos) de 1967. Dele recolhi, e tento conservar sempre, muitas lições de humildade, coragem, dignidade, honestidade, respeito e amor ao próximo e à terra em que nasceu e eu também nasci.

Mas hoje, ao se aproximar mais um pleito eleitoral e quando o “ama com fé e orgulho a terra em que nasceste” parece nunca ter sido ensinado, quando os rumores de corrupção misturam-se com a explosão da miséria, das crenças religiosas, da falta de esclarecimento e ao vazio dos discursos de corruptores e corrompidos, maculando o orgulho de sermos palmarinos, lembro o que meu pai não conseguiu ser: um político!

Certa vez, por iniciativa de amigos, candidatou-se a vereador. Não fez campanha nem comício, e nem comprou eleitores. Os conterrâneos e ele tinham sua eleição como naturalmente ganha, mas perdeu por um voto. Ficou triste. Nunca mais quis ser político. Eu fiquei mais triste ainda. Chateado, na escola e na rua, com a gozação dos meus amiguinhos, e na inocência dos meus dez anos, entrei rápido no escritório do meu pai e lhe perguntei abusado, quase chorando: - “Pai, por que você perdeu?!”. Ficou surpreso e calado por alguns instantes. Como que envergonhado, correu vagarosamente o olhar para cima e para baixo... para as paredes da sala, como se estivesse procurando a resposta e olhou-me novamente. Com um sorriso do mais vitorioso de todos os vencedores, puxou-me carinhosamente para seus braços, beijou-me a testa e abraçou-me forte. Depois, afastando-me, colocou suas pesadas mãos em meus ombros, balançou-me, fitou-me bem nos olhos e firmemente respondeu: - “Porque sou honesto!”.

Lembrei-me imediatamente das palavras de Rui Barbosa e me senti subitamente alegre e consolado, embora não tenha entendido bem a resposta. Nunca mais voltei a tocar no assunto. Mas recordo que tive um grande orgulho do meu pai naquele instante, pois apesar da tristeza da derrota ele havia, também, me ensinado a ter alegria na vergonha ou o que, finalmente, significava ter VERGONHA DE SER HONESTO!

Sílvio Sarmento.
Radialista e diretor da Rádio Zumbi dos Palmares - FM / União dos Palmares - AL
Texto também publicado no folheto "Leia!", distribuido gratuitamente.

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"de tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver crescer as injustiças,
de tanto ver agigantarem-se os poderes
nas mãos dos maus, o homem chega
a desanimar-se da virtude,
a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto".
[ruy barbosa]