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16 de set de 2009

"De Quinta Categoria"

É recorrente em minha mente o seguinte problema: a Arte reproduz a vida ou a vida reproduz a Arte? Dias chego a conclusão de que a Arte veio antes e o homem aprendeu a domina-lá. Já outros dias concluo que foi o homem seu criador, como forma de representar o mundo, ou pedaços, fragmentos, cenas de uma vida, de um relacionamento, resumir histórias geniais que não poderiam ser esquecidas, exemplos de como agir, como não agir.

Moro em uma cidade do interior de Alagoas, nordeste brasileiro. Assim como pode-se acompanhar na novela das 6, existem pessoas que se travestem de personagens já a muito tempo, obsoletos. A arte é extraída da vida e os redatores de novela parecem ter muitos amigos que os contam sobre o modo de vida em suas terra-natal. Através das histórias íntimas, vai surgindo o enredo que assistimos diariamente, expondo nossa vida sem que percebamos.

Após ouvir mais do que falar, os autores começam a compor seus personagens: aqueles que herdaram dos pais o ímpeto do poder a todo o custo, vulgarmente chamados num passado não tão distante de coronéis não podem deixar de faltar em nenhuma novela "de época" que mesmo sem citar o tempo e o espaço, é evidente seu contexto atual. Após a identificação do coronel protegido por um batalhão de senadores e deputados, vem seus lacaios: geralmente os prefeitos e outros asseclas tanto do Poder Executivo quanto do Legislativo, fazem papel de pequenos vilões trapalhões, com uma grande caída para o puxa-saquismo exacerbado de um para com outro, sempre deixando saltar aos olhos as piores intenções possíveis para se manter no poder, ao lado do coronel. As vezes, para fazer uma novela "atual" põe-se um mega empresário no lugar dos coronéis.

Depois, vem a escolha do "lado do bem". Os personagens são baseados em pessoas sofredoras, coniventes, boazinhas, que abaixam a cabeça pra quase tudo mas que no final se dá bem: fica com seu amado e com dinheiro. É aí que se prega a peça. Como a maioria dos espectadores de novelas se identifica mais com o personagem bonzinho (já que esse é baseado naquele) é fácil fisgar um espectador fiel mas apenas se ele se der bem no fim, afinal poucas pessoas entendem um roteiro que não seja bem definido. Acontece que a falsa idéia de que o bonzinho sempre se dá bem no final tomou conta do imaginário coletivo a tal ponto de se esquecer que isso raramente acontece. O bonzinho sempre se f*** no final. Ninguém terá o direito de viver em paz.

É isso que mostra a vida real, o dia-a-dia, mas que na televisão foi transformado, invertido. Na vida do faz de conta, o mal sempre perde. Na vida real o mal sempre vence. Em União é possível encontrar todos os "ingredientes" para uma novela das 6 de sucesso. Tem o coronel. Tem os puxa sacos. Tem os rapazes-do-serviço-sujo; Tem os políticos corruptos/corrompedores. Tem os funcionários tão caricatos que burlam o serviço, vão embriagados, fofocam e trabalhar que é bom, nada. Tem a sociedade burguesa que anda pisando em ouro com seus veículos do ano divididos em dezenas de vezes; Tem os filhos fúteis da sociedade burguesa que acham que vivem num reino pessoal onde as vontades são mais importantes que as conseqüências. Não poderia deixar de faltar as beatas fofoqueiras, os velhos babões que dormem em mesa de bar tarando as adolescentes que passam à provocar e os comerciantes que se acham reis, donos de terra feudais que tratam seus funcionários como servos sem lhes pagarem hora extra, décimo, férias e muito menos 2 dias de folga por semana como reza a Cartilha.

Nossa terra tem os bandidos, os mocinhos, os enganados, os enganadores. Existem aqueles que sabem como o sistema funciona e querem apenas serem mais uma engrenagem podre que movimenta dinheiro através de serviços para os ricos ficarem mais ricos e estes com a rebarba se contentando com um carro, algumas peças de roupas caras e poder ir nos "melhores" bares da cidade exibir tudo aquilo a que sua vida se resume. Assim como também existem aqueles que sabem como todo sistema funciona e tentam alertar da forma que dá as pessoas para que aja uma mudança de pensamento e conseqüentemente uma mudança de atos, pois, como podemos presenciar a cada minuto, o mal está vencendo.

Violência, corrupção, assassinatos, drogas, desejo de muito dinheiro. É nisso que as novas novelas estão se baseando. Os autores dizem que são "retratos da realidade, do dia-a-dia". Concordo. Mas em vez de se mostrar de uma forma crítica, onde ficasse objetivamente claro que aquelas atitudes do "dia-a-dia" são nocivas a sociedade, os autores passam 8 meses incutindo em nossas mentes que aquilo é normal, é assim mesmo que funciona, nada pode ser feito, vamos levar a vida. O povo se identifica, mas ao mesmo tempo se petrifica perante aquele realidade retirada e colada numa tela de vidro colorida por artifícios tecnológicos. A falta de outras opções de qualidade de entretenimento em conjunto com a falta de costume em busca-las, fazem com que o mundo venha a se tornar um exército de trabalhadores sem consciência política-social, fazendo dinheiro para aqueles que os transformaram naquele ser que sente o peso, a cobrança social: você tem que ser "alguém", tem que estudar muito, pra ganhar dinheiro para consumir, consumir e consumir mais um pouco.

Novelas sempre serão de quinta porque espelham vidas de quinta, sem sentido. Se ela é um espelho da sociedade, somos uma sociedade de quinta. Se ofendeu? Eu não. Pois ainda me resta um pouco de consciência. Aquela voz que vem lá do fundo da mente, geralmente quando se está só e sem preocupações mundanas. E ela me mostra, de dentro pra fora, uma sociedade que dá poder a seus pares e estes se locupletam em detrimento de milhões de outros pares, e em vez de dar um fim a esse vício, esta mesma sociedade tenta ser igual àqueles que viola a Pátria. Eu me culpo pelas notícias do jornal de amanhã, você não?

Walter Jr

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