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23 de jan de 2010

EDITORIAL: Mais do Mesmo

"Tá melhor. União tá bem melhor. Maceió também tá melhor. No meu tempo não tinha essas lojas bonitas por aqui...". Ouvi essa frase de uma pessoa que há anos não pisava nessa terra estorricada por coronéis sem patente. Ao voltar, à passeio diga-se de passagem, se deparou com uma Alagoas "melhor". Aquela delcaração me espantou. Me incomodou na verdade.

Meu incomodo se dissipou quando, durante o esforço mental que desprendi para não sentir raiva, lembrei que ela era uma turista. Ela não vive aqui. E estava só de passagem. É filha da classe média, assim como eu. Contudo, ela não vive aqui. E então tive que explicá-la, não de forma didática, mas sim de forma empírica que estávamos cercados de mais do mesmo e nada estava melhor. Para ela, o aumento do comércio, tanto aqui quanto na capital do Estado, era uma coisa "ótima, pois significa emprego". Concordei mas completei que não eram empregos e sim, subempregos. Enquanto olhávamos as lojas pedi pra que ela olhasse bem pra fisionomia das pessoas que trabalhavam e questionei, depois de alguns minutos, se aquelas pessoas aparentavam estarem felizes.

O resposta foi negativa como eu esperava. Afirmei que a maioria das lojas pagavam um salário mínimo por mês e as pessoas trabalhavam 9, 10 horas por dia sem direito a horas-extras, etc. Além de só terem um dia de folga na semana enquanto assistiam seus patrões enriquecerem cada vez mais. Os salários não passam da primeira semana e os empregados passam a maior parte do mês contando os dias pro próximo salário entrar. A pessoa que estava comigo completou: "por isso que o atendimento daqui é péssimo..."

Existem empregos, mas a qualidade deixa a desejar. Desse modo, todos nós passamos a ser vistos e considerados máquinas a serviço da produção exarcebada capitalista. O mercado não nos dá tempo de pensar em nosso bem estar e não se importa com esse fato. Pessoas infelizes, criam pessoas infelizes. Somos produtos do meio em qual estamos inseridos. A insatisfação e o vazio crescem, a violência cresce, a necessidade de dinheiro para se igualar aos de cima da pirâmide cresce exponencialmente. O homem se entrega a ganância, a soberba em busca de poder, seja qual tipo for. O mundo anda cada dia mais violento, criam-se novos golpes e modos de furtar; os roubos são cada vez mais agressivos; sequestros relampagos; calotes milionários no sistema financeiro; corrupção descarada e sempre impune; drogas lícitas e ilícitas consumidas por todas faixas etárias e classes sociais. Exemplificava tudo indicando, durante a caminhada, os mendigos, os homens bem vestidos que gritavam com os filhos por terem sujado o estofado do carro novo, as madames que falavam intertidamente ao celular enquanto as filhas conversavam com um estranho mais velho, os alcoólatras em bares às 9 da manhã, os drogados que se encontravam nas esquinas, os filhos de políticos que usavam a influencia para não pagar contas em bares...

Expliquei que era desse sistema parcialmente controlado pela União que saia os recursos para que o comércio, as indústrias, as empresas, em qualquer que fosse o lugar, crescesse e florescesse. Aqui não se paga impostos, sonegasse, afinal ninguém garante que o governo vá dá um fim digno aquele tributo. Aqui não se dá direitos trabalhistas pois os empregados simplesmente não os conhecem. E não pense se porque você tem um diploma de nível superior pode sair de fininho fingido que o problema não é seu, afinal, seu sonhado mestrado, douturado ou mesmo aquele simples concurso, servirá de combustível para que a "cabeça", o "intelecto" desse sistema sobreviva. O governo é o "braço" que tudo comanda. As pessoas marginalizadas, faveladas, sertanejas miseráveis, indígenas missigenados, que se voltam contra a sociedade são as "pernas" que tudo movimentam se transformando hora em trabalhadores violentados hora em bandidos "inimigos da sociedade".

Meu interlocutor me olhava com cara de espanto. Achava que eu era louco. Mas eu sabia que eu tinha despertado um modo um pouco mais real de ver o mundo nele. A pessoa ficou calada durante alguns minutos e depois soltou: "Acho que entendi. As cidades crescem e tudo piora mesmo... Se não existisse carros, não existiriam ladrões de carros...". Não pude deixar de completar e o lembrei que antes de carros sempre existiram cavalos e os ladrões de cavalos. Ou seja, o problema é o homem. Seja no Alasca ou na Terra do Fogo, o problema será sempre o homem e sua mente curta.

Antes era assim. Hoje continua assim e o futuro segue o mesmo caminho. Essas pessoas que são exploradas pelo mercado de trabalho por pura necessidade de sobrevivência não tem tempo para si mesmo, como poderão educar seus descendentes e ter uma convivência harmonica social se estão sempre preocupadas - e com razão - com as dívidas, o excesso de trabalho, problemas domésticos das mais diversas ordens? E se mal temos tempo para nossas obrigações conosco e com quem amamos e convivemos, como então poderemos dedicar tempo para o futuro da coletividade? Enquanto não achamos a resposta ficaremos sempre vivendo o mais do mesmo e achando que o progresso está vindo enquanto o abismo fica cada vez mais próximo.

Janeiro, 2010

Walter A. Jr.
Editor

6 Deixe seu comentário:

Tava escrevendo um texto exatamente sobre isso. É uma outra abordagem, mas concordo com vc Walter. A "melhora" é vazia, o que realmente importa não importa mais.

=/

Como sempre, ácido e impiedoso.

Já não importa há muito tempo... Nós é que demoramos pra enxergar... Infelizmente.

Este comentário foi removido pelo autor.

Agradeço a todos a visita e os comentários! Forte abraço!

Apesar de parecer que as coisas não importam mais, ou quase isso, temos que ter a perseverança de que há o que vale a pena ainda, talvez isso se possa ser chamado de esperança.

O problema é o homem, fato, e para resolver esse problema existe o próprio homem, também.