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3 de abr de 2010

Livro: Budismo

-Budismo
-Claude B. Levenson

-Editora: L&PM


Claude B. Levenson nos apresenta de forma coesa toda a trajetória do Budismo até ser descoberto pelo Ocidente: os primeiros estudiosos europeus, as primeiras escolas dedicadas ao tema, abertura de sociedades dedicadas às traduções, etc. O interesse pelo filosofia budista floresceu na Europa logo após a 2º Guerra. Segundo a tradição indiana - verdadeira pátria do Budismo - estamos hoje no tempo do Kali-yuga, a última das quatro grandes eras cósmicas, na qual sobrevive não mais do que um quarto dos ensinamentos de retidão de caráter; na qual doenças, rebeliões, fomes, desesperos e outros males fazem parte de nosso cotidiano. A humanidade não tem mais objetivo nem conhecimentos espirituais que lhe permitam sair do atoleiro. A Índia Imperial daquela época não era tão diferente dos países capitalistas de hoje: o rico sempre mais rico e o pobre, mais pobre.

Entre 540 e 558 a. C. nasce o príncipe Sidarta. Asita, um eremita/asceta venerado deixou sua gruta de meditação e foi até o rei Shuddhodhana pela chegada do rebento e avisou ao monarca que a criança estava predestinada a se tornar um chakravartin, "mestre da roda", isto é, um grande rei justo e dotado de todas as qualidades, ou seja, um buda, um Despertado. Desde pequeno protegido dentro de um suntuoso palácio, entretido com inúmeras regalias e contemplado com a satisfação de qualquer desejo seu a qualquer tempo... O rei preferia que aquele filho continuasse a linhagem familiar, o que explica o cuidado vigilante para evitar qualquer contato com as realidades da vida humana cotidiana. O karma, ou destino à moda ocidental, chama o jovem príncipe então co 29 anos para conhecer o mundo real: Sidarta sai 4 vezes escondido do palácio, desacatando ordens do rei. A cada saída um encontro que moldou sua decisão final de deixar para trás a vida de realeza: primeiro viu um velho esquelético passando fome; em seguida um doente gemendo do dor na rua; se deparou com cadáveres sendo jogados em fogueiras e por último encontrou um monge itinerante.

Confrontado cara a cara com os males comuns da humanidade, Sidarta reflete sobre a condição humana e seu futuro e pretende encontrar uma saída para tal drama. Então ele parte, na calada da noite, deixando esposa bem-amada, o filho e a gaiola dourada que funcionava como uma tela entre ele e o mundo de seus semelhantes. Passa 6 anos vivendo com mestres renomados do ascetismo (é uma filosofia de vida na qual são refreados os prazeres mundanos, onde se propõem a austeridade) mas as práticas ascéticas não bastaram para convencer Sidarta que ele estava no caminho certo, pois a libertação do sofrimento está ainda muito distante. Segue então sua viagem sem fim, procurando solitariamente a realização espiritual. O Iluminado encerra o jejum ascético depois de dias, toma um banho graças a bondade de um camponês que ainda lhe oferece um molho da erva kusha utilizada nos rituais véticos.

Sidarta dá 7 voltas ao redor de uma figueira-dos-templos e senta em posição de lótus em sua almofada de ervas decidido a não se mover enquanto não descobrisse a cura para o sofrimento, contra a dor, contra o mal de viver e então entra numa profunda meditação. A lenda diz que Sidarta passou 7 dias meditando, lutando interiormente contra Mara (a figura do Diabo para os cristãos) e suas legiões. O demônio gere o mundo dos desejos, mantendo nas teias dos renascimentos sem começo nem fim os humanos presos às suas armadilhas. Destruidor, ele representa também tudo que apego ou vínculo. Ao perceber que Sidarta se aproxima do Despertar, ou seja, se aproxima de uma tomada de consciência total ou definitiva, Mara teme que ele dê a humanidade sofredora os meios de escapar à roda louca: envia contra ele primeiro seus exércitos de demônios, depois suas brigadas de belas moças. Nada adianta: o meditante, numa perfeita postura, permanece de mármore, adotando com um gesto célebre - mão direita tocando o solo perto do joelho - a terra, testemunha de suas realizações anteriores, aborda serenamente a noite decisiva. Vencido, Mara se retira e o Despertar em vida é alcançado.

O Budismo, assim como toda religião, depois da morte de seu "criador" entre em colapso e termina, assim como a Igreja Católica, a adotar ações que vão ao encontro de seus principais ensinamentos: brigas internas, traições em busca do poder, etc. Mas isso não diminui, muito pelo contrário, aumenta ainda mais a importância de seus ensinamentos, que de tão poderosos, já previam até o esfacelamento interno por culpa dos erros dos homens que ainda buscavam o Despertar.

Na minha reles opinião todas religiões são iguais. Não em formas e métodos, mas sim em sua essência: a crença em uma Força Superior e em nossa redenção perante nossos erros. Dentro de cada dogma e rito próprio de cada religião, inserido entre escrituras sagradas que cada religião tem para si, está o pensamento uníssono da existência de algo superior que determina nossas vidas e dá rumo a nosso espírito quando morremos. A doutrina católica, apesar de bem embasada filosoficamente, na prática destoa dos ensinamentos de Jesus, desembocando numa controvertida permissividade. Livre arbítrio lembrarão alguns... As igrejas Protestantes, apesar da rigidez, na prática não passam de clubes, onde o pilar sustentador é sempre o bem material. As pessoas lotam as igrejas evangélicas em busca de emprego, casamento, etc. Os muçulmanos são tão primitivos, irracionais em suas atitudes - embora sigam um livro que tem como base o amor, que nem vale a pena falar: as mulheres não passam de meros objetos, por exemplo.

As religiões ocidentais sucumbiram ao capitalismo de tal forma que, hoje em dia, não passam de instituições sem profundidade. A grande maioria dos "praticantes" ouve o sermão, lê a bíblia de forma relaxada quando não dogmática ao extremo mas agem totalmente ao contrário ao que preconiza as Escrituras Sagradas de cada Religião. Não há compromisso espiritual, "acredita-se" em Deus e só. Não se busca um melhor modo de agir, de viver e sim de se ter luxo, conforto material. Não se busca nem ao menos colocar em prática os ensinamentos dos livros sagrados.

Budismo, é um livro para quem já se questionou sobre as gritantes falhas nas religiões "convencionais", que hoje se curvam ao dinheiro e ao materialismo exagerado. Enquanto as religiões tradicionais afirmam que só após a morte é que seremos julgados, o Budismo, como filosofia de vida, nos ensina que somos julgados a todo momento, por cada pensamento, por cada ato que emanamos. Nosso castigo não vem na "próxima etapa". Nosso castigo vem logo após o erro e só o arrempendimento sincero em conjunto com ações que denotem a intenção de agir corretamente pode nos livrar da roda de dor que é a vida.

Walter A.

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