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28 de fev de 2014

LIVRO: 1822


- 1822, 2010
- Laurentino Gomes
- Ed.: Nova Fronteira



O subtítulo do livro do excelente historiador - como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil, um país que tinha tudo para dar errado - tem função dupla além da própria de subtítulo, a de resumo mais que sucinto. Enquanto as monarquias europeias, cujos tronos eram ocupados por linhagens nobres centenárias enraizadas através de protocolos rígidos de etiqueta e consubstanciadas em genes metodicamente misturados nos casamentos arranjados entre herdeiros reais frequentemente consanguíneos, nossa linhagem real tinha como lastro histórias e mistérios incompatíveis com a virtude e moral elevada que líderes escolhidos por Deus devem empunhar perante seus súditos.


Não obstante esses fatos demeritórios formulados nos bastidores do poder, D. João VI e Dom Pedro II não comandaram suas nações [inclusive alternado-se eles entre nos tronos de Portugal e Brasil] de maneira medíocre. Pelo contrário, esses dois portugueses exibiram, ano após ano, atitudes nobres em relação ao Brasil enquanto os nobres portugueses lutaram até o fim pelo direito imposto de explorar a colônia. Estudar a história de nossa pátria é pressuposto essencial para entendermos onde e como vivemos além de ser fator preponderante para entendermos-nos. É impossível concatenar o atual cenário político e econômico nacional sem compreender como nosso país foi criado e em que circunstâncias. O livro do jornalista paranaense Laurentino Gomes expões ideologias, acordos e arranjos políticos que ribombavam desde a vinda da família real portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 e deram ensejo a independência brasileira.

Cercado de fidedignas fontes bibliográficas, os 24 capítulos de 1822 abarcam fatos históricos consolidados no imaginário popular como o Grito do Ipiranga [e suas circunstâncias diarreicas], discorrendo sobre perfis psicológicos-históricos de Dom Pedro I, Princesa Leopoldina, José Bonifácio de Andrada e Silva, Dom João VI. Abordando análises e críticas que emulam os moldes e indicadores sócio-políticos da sociedade daquela época, Gomes esmiúça de forma bastante dinâmica, porém não menos embasada, fatores que convergiam sempre à presunção de fracasso do suposto novo país: as dificuldades impostas pelas cortes portuguesas que também vivenciavam momentos turbulentos, mas que não impediram o acontecimento da batalha onde mais sangue foi derramado da parte dos patriotas brasileiros, a Batalha do Jenipapo que tem seu capítulo próprio.


A importância estratégica da Bahia e de Pernambuco para sermos a nação que, bem ou mal, somos hoje, assim como a influência da Maçonaria nos rumos do futuro país são expostos de maneira objetiva, resultando numa rápida compreensão extraída graças a fluidez com que Laurentino alinhava cada capítulo subsequente, satisfazendo até o leitor mais ávido por informação [teoricamente, o acadêmico]. 1822 não poderia deixar de cobrir o fatídico romance/concubinato do Imperador D. Pedro I com a Marquesa de Santos, Domitila de Castro; romance este que, de tão intenso influenciou os rumos do futuro Brasil por meio das escolhas feitas pelo Imperador, porém pautadas em pedidos da Marquesa, tendo consequências inclusive na luta de D. Pedro com seu irmão absolutista Miguel que havia saído escorraçado do Brasil para entrar na História portuguesa como herói.

Dom Pedro é a figura central do livro como não poderia ser diferente, contudo a intenção do livro não é montar uma biografia do Imperador do Brasil.  Os temas históricos muitos bem defendidos pelo autor, prendem a atenção do leitor de maneira semelhante a uma âncora que segura o navio. Devida a agradabilidade do assunto somado a ótima escrita de Laurentino Gomes, dentro de poucos dias o leitor culmina rapidamente no último capítulo, onde fica no ar o velho clichê do "gostinho de quero mais". Esse é o segundo livro dessa trilogia que pretende explicar nossas raízes. O primeiro livro detém o título de 1808 [clique aqui e leia uma resenha elaborada por Wenndell Amaral] e será minha próxima aquisição literária.


A História do Brasil nunca despertou grande interesse no estudante primário que um dia fui. A Antiguidade era a época que maior fascínio despertava: Egito, Grécia, Roma... tendo como limite a Idade Média. Agindo em detrimento de mim mesmo auxiliado por minha ignorância, a História parava ali na Idade Medieval e continuava apenas na II Guerra Mundial, meu segundo tema preferido. Em minha incipiente mente juvenil, temas densos e complexos como a Revolução Industrial, o processo de independência dos países americanos, simplesmente não existiam e, a História nacional, ao meu ver turvo, não deveria ter serventia nenhuma uma vez que, ao meu redor, a realidade se mostrava hostil à civilidade e aberta à ignorância e a violência geradas pelos rumos da política brasileira... Finalizei o Ensino Médio em total escuridão em relação à pátria que me pariu. E o pior, como muitos, eu não me envergonhava disso... Apenas tardiamente, no decurso da faculdade de Direito, graças à convergência entre assuntos paralelos necessários ao entendimento das matérias atinentes ao curso [como por exemplo as Constituições outorgadas durante o Império] foi que me atentei tardiamente para a importância de nossa História. 

Ao meu modesto ver, foi facilmente alcançado o intento de despertar o interesse pelo conhecimento dos primórdios de nossas raízes de sangue e assim fertilizar o solo do patriotismo que anda tão improdutivo, infértil e pedregoso na atual República Federativa do Brasil, esta pátria que acha que andar para trás é progredir.

Walter A.
tempo_moderno@hotmail.com / facebook.com/Walter_blogTM
    

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