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22 de mai de 2014

EDITORIAL: morrer na faca cega


Assim como nos infinitos rincões encravados nas entranhas dos países latinos tem seu modo próprio de falar, moldando a língua pátria à seu modo, nos aqui do nordeste, como é notório até debaixo d´água, não destoamos da regra. Desde sempre me recordo dessa expressão: "morrer na faca cega". Faz parte das inúmeras interjeições, substantivos e adjetivos próprios da região. Algo quimérico para minha neófita pessoa, ainda de pouca idade, imaginava eu que morrer na faca cega era simplesmente não morrer já que a faca cega não corta, portanto não causa dano. Fez-se necessário passar por uma experiência empírica para entender a verdadeira acepção do termo tão peculiar: durante minha infância, numa tarde comum, minha atenção foi tomada enquanto eu brincava com meu irmão e primos na sala de casa pelo destemperamento de meu avô, então funcionário público que estava a quase 8 meses sem receber seus devidos salários à época.  - Esse infeliz desse prefeito quer matar o povo na faca cega! - gritou em alto e bom som um cidadão que a muito teve sua paciência esgotada pelo mentor maligno dessa gestão criminosa que massacrou a dignidade, a consciência e a alma dos palmarinos de sobrenome Praxedes. Eu tinha por volta dos 5 anos e só então percebi o que então queria dizer aquela frase misteriosa. Para aquela criança, "matar na faca cega" tomava um novo significado, era fazer sofrer o povo, assim como meu avô sofria naquele momento, mesmo que silenciosamente como a maioria dos brasileiros sofre diariamente para que não falte comida na mesa das famílias. 

Não coincidentemente, mais de 20 anos depois, numa confirmação cíclica do tempo confirmado pela ignorância do povo, esse mesmo nome volta a aterrorizar centenas de famílias de bem que, do auge de sua inocência como cidadãos queriam apenas trabalhar e receber seus proventos para gerir suas famílias através de contratos com a secretaria de Educação do município de União dos Palmares. Hoje foi pago mais de 2 meses de salários atrasados, mesmo sob a alegação anterior feito pelo próprio secretário e demais chefes de pastas de que o pagamento só seria efetuado caso os vereadores aprovassem um imoral remanejamento de verbas. Ou seja, dinheiro sempre teve, eles é que estavam se lixando para o povo. É bom atentar também e se perguntar: os secretários e assessores também ficam com salários atrasados? Esse pedaço da realidade não diz respeito apenas a esse essencial serviço prestado pelo Estado de forma quase monopolista que é a Educação com E maiúsculo. Outra vertente basilar do Estado, a Saúde de nosso município também anda entregue à própria sorte, que nos dias atuais encontra-se em revés, havendo reclamações de falta de itens básicos e baratos nos postos de saúde de área como por exemplo, esparadrapos; também nesta pasta os salários atrasados encontram-se presentes, enquanto o povo necessitado de tudo definha nos corredores de hospitais, perambulam de madrugada atrás de simples exames e morrem sem a mínima assistência do Estado, trazendo para a realidade a figura de linguagem "morrer na faca cega": morrer lentamente, dolorosamente, sem dignidade.

Ser brasileiro, alagoano, palmarino requer muita determinação, força de vontade e fé. Eu e você que lemos, estudamos, e nos encontramos separados das classes mais necessitadas, mesmo que inconscientemente, pela situação financeira um pouco melhor, não conseguimos imaginar nem 50% de como foi, é e será, a dura vida que a grande maioria dos brasileiros sobrevivem. O abismo é tão grande que quando tenta-se criar mecanismos de interação, logo cai-se num tipo de ecumenismo social que mais afasta do que une as pessoas. A classe média, sofre, mas sofre pouco comparado àqueles que tem que acordar as 4 da manhã para ir ao trabalho e voltam as 22 pra então começar tudo novamente durante 6 dias da semana. E são esses às bases de nossa economia, essas pessoas literalmente levam o Brasil nas costas, fazendo o que os sofistas de hoje tem vergonha de fazer. Aí está onde quero chegar: ser honesto, trabalhar, honrar suas dívidas, não matar, não roubar, enfim, viver como um homem na antiga acepção da palavra em nosso país requer, além das qualidade ditas na primeira frase desse parágrafo, tem-se também que ser corajoso pois, o trabalhador brasileiro já sai de casa rezando pra não ser roubado, morto, sequestrado (mesmo não tendo nada nem nos bolsos quanto mais no banco), não esquecendo de pedir proteção contra qualquer tipo de acidente, doença, etc. já que a saúde pública anda matando mais que salvando por puro descaso criminoso do Estado.

A roubalheira de dinheiro público pune indiretamente, porém de maneira dolosa, prejudicando milhões de famílias inocentes que deveriam ser protegidas de populismo barato mas encontram-se cooptadas por esmolas jorradas dos esgotos que escorrem dos cofres federais. No nosso município é gritante a materialização dessa realidade de miséria. O órgão institucional (secretaria de Educação) encarregado de acabar com a ignorância e fazer reinar a sabedoria atua de maneira contrária à suas prerrogativas democráticas, servindo apenas a uns em detrimento de milhares, ajudando a subjugar a grande maioria necessitada tanto pelo sistema político assassino atual quanto pela própria ignorância que os fazem alienar-se e deixarem depender-se cada vez mais de terceiros em todos os âmbitos sociais. Me refiro a Educação como mero exemplo. As outras pastas, e os demais Poderes não fogem a essa macabra e lucrativa regra. É comum que, quando o Executivo dá sinais de irregularidades o Legislativo logo é acalmado por meio de verbas legais e principalmente ilegais, além de manutenção de cargos para assessores, familiares e para os famosos "baba ovos". Quando a situação se inverte, logo o Executivo prontamente aciona nossos nobres edis para, em troca de amenizar e abafar as irregularidades, "solicita" maior atuação da "base governista". Diante do lamaçal em que a política brasileira, e consequentemente a palmarina, anda chafurdando, onde nossos representantes comem e cagam na ética e na moral, essa troca de afagos extrapola os gabinetes, bordéis e mansões dos políticos e já se tornaram corriqueiras, do âmbito municipal ao federal [vide o escândalo da Petrobras-Passadena e o uso indevido de aviões da FAB por parlamentares, ambos fatos que acabaram em pizzas de sabores variados].

Para que os políticos possam ficar chocando os ovo sentados em suas poltronas, no ar condicionado, comendo e bebendo, nos tratando como gado num curral (por nosso próprio descaso), engordando cercados de seguranças treinados em meio ao luxo advindo do dinheiro gerado pelo povo e seu trabalho, o cidadão de bem tem que, além de trabalhar cuidar da própria segurança ficando atento para não ser roubado, pagar plano de saúde e se quiser ter uma educação razoável para o filho, pagar escola também. O brasileiro hoje morre na faca cega todos os dias, quando não pelos bandidos rafamés, pelos bandidos de colarinho e gravatas italianas. 

Não obstante, o que mais assombra é a inércia de instituições imbuídas por nossa Carta Magna em defender a sociedade brasileira desses gabirus obesos que tem como prato predileto verbas públicas. A petrificação do Ministério Público e dos Tribunais de Contas perante à algazarra generalizada com o dinheiro do povo, são habitats altamente propícios para o desenvolvimento de políticos criminosos, que aproveitando-se da imensurável indolência política da grande maioria da população vivem em luxúria e soberba sustentados pela Nação. Aqui em nossa cidade, apenas uma instituição até agora apresentou armas ao combate contra a corrupção crônica que se alastra como metástase pelo Brasil, foi a magistratura por meio do juiz de direito Ygor Vieira de Figueirêdo que vem fazendo todos os esforços legais para apurar as denúncias que chegam aos montes de ambos poderes, tanto do Executivo quanto do Legislativo municipal por meio dos blogs, redes sociais, verbalmente pelos próprios funcionários, etc.. Sobre os tribunais de contas, melhor manter silêncio. Já acerca do Ministério Público, não podemos calar-nos visto seu mister constitucional.

Diante de tantos indícios de ilicitudes não faltando até documentos carbonizados em plena prefeitura, além de centenas de notas fiscais frias, o Ministério Público, através de seu representante titular ou substituto, tem como preceitos constitucionais dispostos no art. 127 da Constituição Federal, "a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis". E o que seja mais de interesse social para defender a ordem jurídica e o regime democrático do que uma gestão municipal competente, transparente e honesta que siga todos os trâmites legais para gastar o dinheiro do povo? Uma vez que o município encontra-se refém de representantes suspeitos tanto no Executivo quanto no Legislativo, nada mais justo com o senhor promotor local, exercendo as funções constitucionais elencadas no art. 129 da Carta Magna, incisos II, ou seja, "zelar pelo efetivo respeito dos Poderes Públicos e dos serviços de relevância pública aos direitos assegurados nesta Constituição, promovendo as medidas necessárias a sua garantia; e III: promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do patrimônio público e social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos". Pois então nobres, para aqueles que ainda persistem na dúvida por mais clara que esteja a questão, as verbas, veículos, prédios e etc. são patrimônio público e social do povo palmarino e o promotor é obrigado por lei a gir para denunciar diante das tantas provas já públicas e notórias. Diante da maioria de vista encurtada pelas políticas sociais e culturais vigentes, é fácil se esquivar, ou melhor prevaricar, diante de tantos indícios. Vale lembrar que o Ministério Público também deve atuar fiscalizando os Tribunais de Contas, conforme art. 130 da CF.

Citei o até então secretário de Educação municipal e da pasta da Saúde pois são os casos mais latentes e atuais da forma tosca, tacanha e medíocre de se fazer política aqui em União dos Palmares mas que serve de parâmetro para Alagoas e para o Brasil. O que muda são apenas os imensos valores transacionados. Poderia até citar o tal "mensalinho" dos vereadores, mas ainda carece de poucas informações sérias. Num município onde as instituições - Câmara de Vereadores, Ministério Público -  incumbidas de zelar pelos direitos do povo assiste o depenamento do patrimônio público de camarote com tudo pago, nunca é demais aguardar mais um pouco antes de ventilar supostas denúncias já que por essas bandas as coisas mudam muito rápido de figura. Verbas somem, verbas aparecem, pagamentos atrasam, pagamentos são pagos magicamente, dono de bar se transforma em eletricista em notas fiscais aparentemente frias, placas de motos estão registradas como sendo de ônibus em outros pagamentos... E assim o povo palmarino vai vivendo, como na época de meu avô, lutando a vida toda pra evitar o inevitável: morrer na faca cega dos políticos.


Maio, 2014


Walter A.
tempo_moderno@hotmail.com / facebook.com/walterblogTM



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Sábias palavras! Se aqui é assim, imagine como é no sertão onde parece não existir nem fiscalização. Onde ja ouvi da boca da secretária, falando ao usuário que a lei nao se aplica lá.