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27 de jul de 2014

MÚSICA: O TERÇO

O Terço
Criaturas da Noite
Underground/Copacabana, 1975



O Terço foi formado no final da década de 60 no Rio de Janeiro. Permanecendo obscuramente no undergroud até hoje, boa parte daqueles de pouca idade que estão começando a adestrar seus ouvidos para a boa música, assim como a maioria daqueles que já maduros, desconhecem essa grande banda nacional. Formado para essa gravação por Sérgio Hinds [vocal, viola e vocal], Flávio Venturini(!) [piano, teclados e vocal], Sérgio Magrão [baixo e vocal] e Luiz Moreno [percussão e vocal], a banda emanava um afiado rock progressivo com influências de Pink Floyd, Emerson Lake and Palmer, Rush, etc.  


Surgida num momento histórico em que músicos sofriam muito mais que hoje para exercer seus dons porém em contraste, uma época infinitamente mais produtiva culturalmente; derrotando adversidades, O Terço cravou sua arte na história brasileira através de sus músicas inovadoras, tanto para os garotos da época quanto para os de hoje, se por acaso se interessassem por música boa. Juntamente com O Peso, Módulo 1000, 14 Bis, Patrulha do Espaço entre outras bandas, O Terço fez reverberar ótimas canções nos primórdios mais que esquecidos do rock nacional. Nesse tocante vale um adendo: para a "grande mídia" [e consequentemente para os `rockeiros´ mais alienados] o rock nacional começou e terminou nos anos 80, creio eu para fazer jus a fama de que brasileiro não tem memória. Acontece que eu tenho memória, apesar de não ter acompanhado esse movimento artístico fora de série já que minha idade não permitiria, infelizmente, o que li sobre as bandas e as músicas que escutei fixaram nos sulcos de meu cérebro mais algumas lembranças de um tempo que não vivi, mas sento falta. O rock nacional é tão velho que os temas que os "rebeldes" de Brasília [filhos de diplomatas e endinheirados] abordavam, já tinham sido trazido à tona de maneira ainda mais sutil e visceral, porém com mais técnica e menos raiva descontrolada por esse pessoal "das antigas". Contudo, convenhamos que a necessidade quase que fisiológica de urgência em tudo na vida que os jovens tem orgulho de exibir, é motivo de grandes artistas se percam no tempo, sem público. 

Esse é o terceiro álbum da banda, e para muitos o melhor. Não é a toa que os caras continuam na ativa divulgando um dvd gavado em 2012 onde eles tocam esse disco na íntegra, afinal aqui estão reunidas as melhores características do rock progressivo d´O Terço. O álbum abre com Hey Amigo, um hard rock matador com riff pesada, órgão marcante e bateria cadenciada, tudo isso para proporcionar um belo pano de fundo para que os vocais dobrados e muito bem afinados se sobressaíssem.  Na segunda faixa, Queimada, os violões e violas dominam as harmonias, criando uma atmosfera de rock rural, onde é possível em alguns momentos, até ouvir o estalar da fogueira queimando...

Em Pano de Fundo, os riffs e os teclados viajantes voltam à tona para ditar o rumo, dessa vez numa levada de percussão funk, porém alternada com com vocais e letras psicodélicas. Em Ponto Final, quem dita o ritmo inicial é um belíssimo tema de piano que lembra muito Radiohead, ou melhor, Radiohead que lembra muito O Terço. Os solos de órgão, acompanhado por uma guitarra minimalista e uma percussão por demais criativa, levam o ouvinte para lugares remotos, etéreos, onde por mais que se esteja só, a sensação de conforto e relaxamento é durável. Em Volta A Próxima Semana, o rock dita o ritmo para que a letra ácida encontre os ares que a levarão para próximo ouvidos: guitarra e teclado em consonância enquanto o vocal oferece excepcional performance.

A faixa título detém os melhores arranjos do disco assim como uma letra condizente com a proposta do disco. Os violinos preenchem os arranjos não de maneira pedante como a maioria, mas sim de modo contido mas não menos apreciado. Caminhando para os minutos finais, apresentando duas últimas canções que não possuem já o mesmo brilhantismo, o disco caminha para o fim, destilando temas de piano, órgão e riffs muito bem trabalhados. Hoje senhores, esses homens deveriam ser muito bem reconhecidos pela sociedade uma vez que a qualidade de sua arte, é muito superior a tudo que se faz desde 10 anos atrás.

Walter A.
wjr_stoner@hotmail.co, / facebook.com/walterblogTM

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