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30 de jan de 2009

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UM POUCO DE HISTÓRIA NÃO FAZ MAL A NINGUÉM

A priori

A escravidão não pode ser vista apenas pela ótica econômica, ou seja, apenas através da exploração do braço escravo, durante o longo tempo de existência se constitui como uma instituição jurídico-social, sendo assim, a sociedade brasileira se constitui como nação em torno de relações jurídico-sociais escravocratas. Os escravos a resistiam de várias formas: através do bandidismo, negros fugidos que viviam de roubos; da revolta, organizada pelos escravos intelectualizados pela cultura árabe; e do quilombo, a forma clássica. É muito comum pensar o quilombo como uma comunidade isolada, tentativa de reconstituição da sociedade tribal africana, na dinâmica social escravocrata os quilombos em sua maioria precisavam manter um fervoroso comércio, desta maneira o quilombo não pode ser visto como uma comunidade isolada no mato.

O Quilombo dos Palmares

O Quilombo dos Palmares tem sua origem no início do século XVII ou até antes. Um documento do governo português aponta para uma primeira “entrada” organizada pelo governador-geral do Brasil, D. Diogo Botelho em 1602, que pode confirmar a existência do quilombo por volta do fim do século XVI. Mas documentos que comprovem o surgimento do Quilombo dos Palmares aparecem com o registro das atuações dos holandeses em suas tentativas de destruir o Palmares em 1644 e 1645. Pode-se definir com mais exatidão a formação e duração de Palmares por volta de 1630 e 1695. Para Edson Carneiro, Palmares ocupou uma extensa área de solo rico e de mata fechada entre os atuais Estados de Alagoas e Pernambuco durante quase todo o século XVII. O historiador alagoano Alfredo Brandão, defende que Palmares surge nas proximidades da atual cidade de Viçosa, em suas palavras: “município esse que foi, portanto, o berço da república dos negros”.

Documentos revelam que Palmares era formado por vários mocambos, cidades autônomas e espalhados pelo sul da província de Pernambuco. Cada mocambo era liderado por “maiorais” escolhidos em assembléias por sua coragem, boa liderança e principalmente pelo seu destaque nas guerras. Os assuntos relativos a cada mocambo eram tomados por esses “maiorais” em assembléias locais, porém algo que envolvesse todo o quilombo era decidido em conjunto, todos os “maiorais” de mocambos reuniam-se no grande conselho localizado no mocambo principal: a Cerca Real dos Macacos, Serra da Barriga, onde residia o rei e grande senhor do conselho.

Os documentos deixados pelo governo português pouco fala sobre a composição social quilombola. Nas cartas Del Rei ao governador-geral aponta para libertos dentre os negros aprisionados após a destruição do quilombo, outros documentos levam acreditar que havia refúgios brancos no quilombo e as pesquisas arqueológicas confirmam um grande número de indígenas no quilombo. O pouco que se sabe sobre as relações existentes dentro do quilombo decorre de vagas informações de um escravo que forneceu ao seu senhor seduzido pela alforria, os negros recém chegados recebia mulher e terras compartilhadas por quatro ou cinco escravos. Os escravos capturados nas investidas aos engenhos só adquiriam a plena liberdade após provar o seu valor, enquanto isso, eram considerados ainda escravos.

Durante a existência de Palmares destacam-se dois grandes chefes quilombolas, lideres da resistência negra contra a opressão da sociedade colonial: Ganga-Zumba e Zumbi. Ganga-Zumba é apontado nos documentos existentes como o líder do quilombo no período posterior a expulsão dos holandeses. É preciso salientar que um dos motivos para o crescimento do quilombo está na ocupação holandesa, é no período de ocupação holandesa que o controle da sociedade escravocrata afrouxa-se dando maior liberdade para a fuga. A partir de 1665 quando os portugueses restabelecem a estrutura colonial anterior a ocupação holandês o cerco a Palmares aperta.

Palmares antes de 1665 mantém uma relativa segurança, a “guerra do mato”, guerra praticada através de guerrilhas servia bem aos propósitos de sua segurança. Mas a partir de 1665 com o restabelecimento das estruturas coloniais portuguesas enfrentam constantes ataques, esses ataques levarão em 1678 Ganga-Zumba a entrar em acordo com o governador de Pernambuco Aires de Souza e Castro. A derrota imposta pela “entrada” de Fernão Carrilho força ao líder quilombola a firmar o Pacto de Recife, estabelecendo o retorno dos escravos aos seus senhores e liberdade para seus líderes e os nascidos em Palmares. Tornando se vassalos Del Rei, vivendo num mocambo chamado Cucaú. Décio Freitas sublinha que desde o início os ocupantes do Cucaú eram explorados nas relações comerciais e tratados como inferiores pela comunidades vizinhas.

Jovens guerreiros liderados por Zumbi não concordam com Pacto de Recife, resgatam a luta contra a escravidão, impondo uma ditadura. Ditadura aqui se encaixa como reorganização da comunidade quilombola pra resistir as constantes entradas portuguesas. Nos quinze ou dezesseis anos seguintes após a luta entre os adeptos de Cucaú e os partidários de Zumbi, Palmares se fortifica e se organiza como um reino negro. A incansável luta para destruir Palmares só pode ser compreendida pela dimensão e organização, as autoridades portuguesas perceberam o perigo que Palmares representava a ordem escravocrata. A resposta para as constantes “entradas” não se explica apenas pelos ataques palmarinos as povoações vizinhas, Domingos Jorge Velho se queixava às autoridades portuguesas das ligações entre as comunidades e o quilombo, os palmarinos mantinham comércio e uma relativa paz.

Para se ter uma idéia da importância do crescimento do Quilombo dos Palmares, um documento francês da época citado por Koshiba refere-se a Palmares como “O Reino Negro dos Palmares”. Diante de uma sociedade colonial voltada para a exportação de açúcar a qual faltava alimentos para a subsistência Palmares significava abundancia. Numa sociedade de miseráveis era fácil entender a fuga de homens e mulheres brancas para o quilombo, portanto, Palmares crescia e fazia voz a sociedade colonial escravocrata. Os vinte e dois dias de lutas em 1694 é cerne da ferocidade portuguesa a fim de destruir Palmares, em toda a história de Palmares nunca houve uma luta tão prolongada, caía o refugio negro, mas a luta se prolongaria por quase dois anos até a morte de Zumbi em 1695 - ou não! Em minha opinião ela continua até os dias atuais...

A posteriori

Entender Palmares requer uma compreensão da sociedade colonial, é a partir desta compreensão que podemos entender o significado real da luta quilombola. Geralmente quando se fala em sociedade colonial automaticamente se pensa na dualidade: escravos e brancos. Mas isso não corresponde a realidade social, havia contradições no mundo dos brancos; e no mundo escravo subdividido em ladinos e braçais, os primeiros especializavam na indústria artesanal, enquanto os segundo trabalhavam na lavoura. O conflito existente nestes dois mundos gerava uma massa de oprimidos, explicar-se a partir deste ponto porque havia brancos em Palmares e escravos lutando contra Palmares. O Quilombo dos Palmares se sobre sai entre os demais pela sua capacidade organizacional de unir os diferentes grupos oprimidos em torno de uma sociedade na qual viveriam como seres humanos e não mais como coisas.
Monteiro,
Estudante de História.

4 Deixe seu comentário:

Não muito o que dizer.

Resumindo, BRAVO! São pessoas como Monteiro que não deixam o nome de União na lama.

Um pouco de história não faz mal mesmo! Quanto mais lermos, discutirmos e tentarmos entender sobre Palmares, sobre Zumbi e sobre a sociedade escravocata brasileira, estaremos entendendo nosso passado recente e poderemos também tentar fazer um futuro diferente.

Óia Waalter como é bom um pouco de história feita da ótica de historiadores e não de história feita pela ótica de alienadores que até hoje tentam desfigurar a importância que o Quilombo teve não só na luta pela liberdade, mais também pela igualdade e por uma vida digna e justa de se viver.
Quando se lê pela ótica dos meios alienadores que existiam escravos no quailombo se entende que os quilombolas também usavam escravos, mais na verdade era simplesmente para ver se aqueles não eram traidores e espiões e se mereciam viver como homens livres no quilombo.

NOTA 10 Monteiro.

Zumbi, Jesus, Che, Mandela e muitos outros forma homens que lutavam por uma vida diferente da que o sistema vigente impunha. Sendo Digna e Justa.

Sim, e o Monteiro escreveu de forma mais completa aquilo que eu tinha dito de forma bastante resumida quando te fali de Zumbi e da Vida noquilombo, visto que eu já conhecia todos esses estudos históricos. Também conheço aquela versão que você tinha falado.