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15 de out de 2010

Filme: Tropa de Elite 2

Nessa sequencia de Tropa de Elite (2007), o diretor José Padilha nos apresenta Capitão Nascimento já nas primeiras cenas. A narração marcante encontrada no primeiro filme está de volta, mas ele já aparece diferente, o jeito de falar é outro. Uma das primeiras cenas já é de conhecimento do público, pelo menos para aqueles que assistiram aos trailers e anúncios de Tropa de Elite 2. A cena em que Nascimento tem seu carro metralhado é inteligentemente fixada ali, no início, para logo depois fazer um enorme flashback até voltar para aquele ponto. E quando volta, todos já estão envolvidos, com uma mistura revoltante de sentimentos.

Em Tropa de Elite 2 Nascimento é Coronel, comandando o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) do estado do Rio de Janeiro. A tropa é acionada quando o presídio de segurança máxima Bangu 1 é tomado por um traficante, personagem de Seu Jorge, que pretende acertar contas com rivais. Fraga, um professor e defensor dos direitos humanos, é convocado pelos traficantes para negociar antes que o BOPE entre no presídio para abafar a revolta. Nesse ponto Mathias (o iniciante de Tropa 1), agora Capitão do BOPE, toma a iniciativa de atacar o grupo de traficantes antes de Fraga, otimamente interpretado por Irandhir Santos, conseguir terminar a negociação. Quando surpreendido, o traficante faz Fraga de refém, Mathias mete uma bala da testa do meliante e Fraga cai junto, salvo.

Com esse desfecho, Coronel Nascimento e Capitão Mathias são responsabilizados pelas mortes no presídio. Aparece então a classe dos políticos. Ai é que a história começa. Após o incidente tudo muda. Nascimento acaba Sub-Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro e Mathias é expulso do BOPE. O agora engravatado Nascimento, tentando se adaptar na nova situação, conclui que ali - "dentro do sistema" - poderá resolver os problemas com mais eficácia. Contudo, ele não tinha conhecimento da corrupção e safadezas que alimentam o próprio "sistema", questão amplamente mais difícil de ser combatida do que traficantes armados e policiais sanguessugas. Tudo que nos é apresentado depois através das lentes guiadas por Padilha é sujo, revoltante, desanimador, mas é tudo mais do menos, tudo que todos nós sabemos de um jeito ou de outro. Só não temos a coragem que Padilha e o Nascimento tiveram. É tudo verdade, mesmo ali, em plena ficção.

Assistir Tripa de Elite 2 "O inimigo agora é outro" é estar diante do espelho. Estamos na história. Você é uma testemunha. Acaba o filme e não adianta mais esconder o jogo. Você sabe de tudo. E agora? O que fazer? Continuar fingindo que nada acontece, que está tudo normal e o Brasil é o País Tropical abençoado por deus, como diz Benjor? Nada disso. Renato Russo já escreveu melhor: Que país esse? Nós sabemos a resposta.

Infelizmente, julgo que entre os milhões de expectadores que Tropa de Elite 2 terá, poucos irão proceder uma reflexão sobre os temas tratados. Falar que meus olhos encheram de lágrimas lá pelos 75 minutos de exibição do longa poderá servirá de motivo de risos para muitos "cidadãos". As lágrimas foram contidas, mas a indignação continuou até o fim do filme. Alias, continua até hoje. Espero que nunca passe. Os frutos de nossa péssima Educação são percebidos nessas situações. Um produto como Tropa de Elite 2 é mais que um filme. Entretanto, a referida falta de Educação agrava o entendimento de um produto como este. Muitos só enxergam ali tiros, sangue, palavrões e nada mais.

Já assisti alguns filmes que beiram a perfeição técnica, e nesse quesito Tropa 2 entrou para essa minha lista. Se fosse num júri de um festival de cinema, votaria da seguinte forma: Roteiro 10; Atuação 10; Som 10; Fotografia 10; Direção 10; Montagem 10. Enfim. Produção nacional que bebeu na fonte estrangeira, mas não perdeu a veia, a vontade e qualidade brasileira.

Ainda, Tropa de Elite 2 suscita discussões sociológicas e políticas. É um convite para repensarmos a famigerada Democracia ou pelo menos o jeito como lidamos com ela. Esse esquema que enche os palácios e assembleias de corruptos caras de pau e assassinos de colarinho branco, ao mesmo tempo que estes enchem os bolsos de dinheiro molhado de suor e/ou de sangue, mas que ainda não inventaram nada melhor. Será mesmo? Podemos melhorar a Democracia. Mas como? Quando essas falhas vão acabar? Basta um ato de coragem? Talvez, um futuro Tropa de Elite 3 possa mostrar uma resposta. Ou melhor: talvez nós, brasileiros, acharemos a resposta sem esperar tanto tempo.

José Padilha mostrou que é possível fazer o melhor no cinema brasileiro. Ele fez uma obra que extrapola rótulos. A unanimidade é que Tropa de Elite 2 DEVE ser assistido por, se possível, todos os brasileiros.

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