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1 de jul de 2016

LIVRO: Pare de Acreditar no Governo


- Pare de Acreditar no Governo: por que os brasileiros odeiam os políticos e amam o Estado, 2015.
- Bruno Garschagen
- Editora: Record


A crise que tanto ribomba desde os noticiários até o boca a boca na rua já faz parte do cotidiano brasileiro. Seguindo seu papel histórico de conformista, o povo brasileiro médio só veio despertar o imensurável saque aos cofres públicos depois que acabou o dinheiro para o carro melhor, para o iphone, para a roupa de marca, para a viagem de avião; tal qual homem traído que só vem cair em si depois que a esposa sacana estoura o cartão crédito com seu amante gigolô deixando a fatura no seu colo com um bilhete de adeus. A diferença aqui é que o PT não quer largar o marido e também não permite reclamações, quer total subserviência. O que de fato levou o povo brasileiro (uma nação reconhecida mundialmente pela sua democracia ainda em ascensão, porém forte e também por seu "senso de esperteza" seja lá o que isso queira dizer) a se deixar enganar ao ponto de um único partido dominasse e manipulasse as finanças públicas ao seu gosto durante 13 anos? Um povo subjugado em mansidão, onde a falta de civilismo descambou numa inerte expectativa de ver o PT incrustar nas empresas estatais todo seu aparato, suas células desenvolvedoras de corrupção (vide Petrobras, Furnas, Correios, BB, BNDES, Caixa, isenção de impostos para a FIFA)  enquanto aumenta a cobrança de taxas aos trabalhadores segundo fielmente a agenda socialista moderna.



Bruno Garschagen, membro do instituto Von Mises Brasil (órgão que estuda a economia de mercado) expõe de maneira objetiva e composta de um humor ácido - de grande utilidade a um tema tão indigesto - uma resposta consistente para nossa inércia política: nós brasileiros odiamos falar sobre políticas, odiamos partidos políticos, odiamos os próprios políticos lato senso, contudo, paradoxalmente, amamos o Estado. Premissa que corrobore a hipótese? Vamos lá: agora que as ilegalidades do governo vieram à superfície exibindo todo um caleidoscópio de corrupção - que são partes inerentes ao sistema de poder posto em prática pelo PT e seus aliados - quem são aqueles autorizados pela Constituição, a impedir Dilma de governar e condená-la pelos crimes de responsabilidade cometidos? o próprio Estado, através do Congresso composto em sua maioria por cúmplices dos desmandos e afrontas a democracia cometidos pelo próprio governo. O autor exibe a dependência do brasileiro em relação ao Estado (Governo) nas mais variadas castas sociais, do escravo imperial ao empresário bilionário contemporâneo. Infelizmente, com a guerra cultural gramsciana* favorável a seus idealizadores esquerdistas, já faz parte do inconsciente coletivo do brasileiro esperar tudo do Estado. Com anos de política populista impostos pelos partidos socialistas brasileiros [PSDB e PT e congêneres] esse sentimento de assistencialismo exacerbado e obrigatório do Estado que impede o desenvolvimento social e intelectual pleno das massas, foi-se calcificando no inconsciente coletivo, como um "mandamento divino, um imperativo categórico" nas palavras do próprio idealizador da guerra cultural, Antonio Gramsci. Assim, cada parcela do Bolsa-Família recebido pelo cidadão preguiçoso e conformado completa e inicia um ciclo vicioso de pobreza material e intelectual extremamente difícil de combater, já que é criado e alimentado e, paradoxalmente, combatido pelo próprio governo (Estado).


Muitos cidadãos leigos ainda acham que vivemos num país capitalista. Apenas a mentalidade do brasileiro e os lucros bilionários das grandes empresas (estrangeiras)/bancos são capitalistas. O coração e a alma do povo tupiniquim é estatista. E ainda existem aqueles que confundem capitalismo com egoísmo, misturando sentimento de posse com um sistema político/econômico... Pode-se, inclusive, usar essa confusão de conceitos para exemplificar como a guerra cultural funciona: confundindo conceitos no imaginário popular com o objetivo de desinformar ao mesmo tempo que o conjunto das informações superficiais recebidas e manipuladas, influenciam as massas a aceitar a agenda progressista socialista que gera morte, desemprego e corrupção [vide casos Mensalão, Lava Jato, Satiagraha, Mãos Limpas, etc.] condenando de pronto e sem qualquer reflexão os "desmandos e desigualdades do capitalismo" enquanto idolatram a "ideologia" comunista. O livro cataloga nossa aptidão para a dependência estatal desde a época do Brasil colônia, quando no Descobrimento a carta que descreveu as primeiras impressões sobre o Brasil, escrita por Caminha, era na verdade um emplastro para pedir ao rei um emprego público para si e para libertar um genro seu preso... O "jeitinho", a mamada de tetas governamentais e a meritocracia do malandro fazem parte, infelizmente, da gênesis brasileira. Deve-se levar em consideração que sair de Portugal para enfrentar uma viagem causticante rumo a um mundo selvagem, desconhecido não é tarefa que empolgue os melhores cidadãos, mas esse fato não é motivo para empoderar mal caráter. E Portugal pagou o preço pela politica de enviar pessoas sem escrúpulos.

O governo da Coroa passou a intervir cada vez mais na colônia pois em poucas décadas já existiam lugares (vilas) que comercializavam livremente com outras nações sem o consentimento dos portugueses. Desde então, passando pelo Brasil Imperial até a atual República, o autor ilustra, com grande lastro bibliográfico, os modos operandi de nossos governantes: independente de ideologia política, foram todos, em maior ou menor grau, estatistas. Colocavam (e colocam) em prática políticas econômicas e sociais que interviam diretamente na vida do cidadão. Usando suas principais armas, a burocracia e o imposto, Dom Pedro I fez o Estado crescer para equilibrar as situações relacionadas a escravidão que efervesciam o Império, já que era pessoalmente contra a mesma, porém, a elite politica e econômica era maioria e a favor da manutenção da escravidão. O primeiro imperador do Brasil teve um motivo nobre para estatizar o país. Sob o governo de Dom Pedro II, mesmo com a continuidade do crescimento do Estado absorvendo a economia diretamente, houve empresários nativos que se destacaram no cenário internacional por meio de acordos comerciais com nações liberais como Inglaterra, Holanda, França, etc. e o imperador, um intelectual averso a política e amante da cultura, achava que os modos como esses ousados comerciantes faziam dinheiro era sujo, iníquo, uma afronta aos princípios monárquicos (imagina então se Dom Pedro soubesse do Mensalão?). Ou seria medo do poder cada vez maior dos empresários? Bruno Garschagen usa o exemplo do Barão de Mauá, que para o imperador católico, era a ganância encarnada, portanto um pecador. O Estado interviu tanto, que as empresas do Barão acabaram quebrando.

As mudanças causadas pela ingerência exagerada na economia contrastava com a inércia política. Esta só foi posta em movimento dinâmico quando a monarquia insistiu em abolir a escravidão, o que obrigou os chefes políticos regionais a agir para não perder seu poder. O príncipe acabou exilado e a República foi instaurada por militares positivistas, onde mais intervenção estatal foi posta em prática na vida do povo, que por desde sempre foi monarquista e apoiava a mesma. Graças ao extenso e qualitativo trabalho de pesquisa histórica do autor, o cidadão brasileiro pode entender melhor esse paradoxo de colocarmos nosso futuro nas mãos daqueles em que não confiamos. Para apagar da memória do povo a época de segurança e estabilidade da era monárquica, os militares republicanos (revolucionários que traíram o governo) adotaram a doutrina positivista para guiar a nação; estamparam o lema positivista na bandeira nacional: Ordem e Progresso. Progresso a todo custo e sempre liderado pelo Estado, nunca pelo povo. A inversão de valores que vivenciamos hoje, teve sua forma moldada na forja da República: o povo deveria ser subordinado ao Estado; este que deveria ser subordinado ao povo. Os republicanos inverteram os papeis colocando o Estado como ente e não como entidade. E esse ente foi colocado acima do homem, no caso, em vez do Estado servir ao cidadão, ele o escraviza através dos impostos e da violência urbana, usada pelo Estado hoje em dia como controle social.


Após os militares republicanos entregarem o poder a presidentes civis (em sua maioria advogados maçons), descentralizando o poder entre os Estados-membros, fato que gerou a ascensão da emblemática e caricata figura do "coronel", constantemente registrada em nossa cultura popular, na literatura e na filmografia nacional. O desenvolvimento das regiões ficou condicionado ao grau de instrução dos chefes políticos locais e regionais e, sendo o Brasil um país de iletrados, os estados-membros que detinham uma elite política mais iluminada, naturalmente, se desenvolveram mais (sudeste, sul) que outras (norte, nordeste; Pernambuco foi exceção na região sendo sempre independente e cosmopolita). A intervenção estatal durante a República intensificou-se drasticamente pois agora o poder estava dividido entre milhares de tiranos locais. E assim caminhou o Brasil, sempre com seu povo sendo desrespeitado em nome dele mesmo através de intervenções desnecessárias feitas por aqueles que deveriam tutelar o povo. O estado político e econômico da época influiu para que Getúlio Vargas, que matou e reprimiu seus opositores, chegasse ao poder. E mais uma vez o Estado foi aumentado, principalmente, através das leis trabalhistas, que não obrigatoriamente trouxe melhorias até os dias de hoje, mas que é um alento estatal para o trabalhador nacional que, ainda não se civilizou o suficiente para ele mesmo ditar as regras do que é melhor para cada categoria com sindicatos realmente representativos, sem politicagens.


O ditador Getúlio Vargas é lembrado e saudado recorrentemente por políticos populistas contemporâneos que fingem não lembrar das intervenções da Ditadura Vargas que foram muito mais nocivas que benéficas. A criação da CLT, num balanço geral, não faz a Era Vargas ser positiva para o Brasil. O decorrer do livro vai demonstrando que, mesmo com a sucessão de presidentes, a sina do brasileiro não muda já que todos nossos governos foram e, até o momento, são intervencionistas. Até demais. Os militares que tomaram o poder em 64, à pedido do Congresso, com a legítima intenção de livrar o país de uma ditadura comunista, cumpriram seus papéis, e o preço a se pagar com a falta de liberdade individual daqueles anos, foi justo se hoje temos liberdade permanente, hoje somos um país livre até demais. Livre ao ponto de comunistas assassinos como Che Guevara, Mariguella, Stalin e outros serem ovacionados e homenageados no nosso Congresso. O livro expõe interessantes paradoxos na história nacional como por exemplo FHC, um socialista ferrenho e teoricamente um interventor, acabou por abrir o mercado realizando privatizações, porém as intervenções feitas na economia estagnaram o crescimento do país e nem mesmo os programas sociais criados pelos tucanos conseguiram segurar o descontentamento dos brasileiros saturados á 10 anos com o mesmo governo. Então Lula, finalmente, conseguiu se eleger e, enfim, colocar em prática o plano político mais ambicioso nunca visto antes na história desse país. A desculpa era acabar com a miséria, mas Lula tinha um projeto de poder secreto (vide Foro de São Paulo) que deveria ser iniciado usando como plataforma as benfeitorias executados por FHC, que por mais que fosse intervencionista (privatizou empresas estatais em compensação criou agencias reguladoras que servem para sedimentar o monopólio) construiu pontes com investidores estrangeiros com a ajuda dos EUA e sempre primou pela tecnicidade em detrimento da politicagem.


O governo petista, fazia o inverso, primando sempre pela politicagem e na intervenção econômica (juros altos, rendimento de poupança baixo, desvalorização do real) e social (tentativa de regulação da mídia, criminalização da "elite", descredito daqueles que não concordam com a doutrinação ideológica pregada e patrocinada pelo governo) resolveu intervir também na política através da implantação de um mega esquema de compra de votos de deputados e senadores. O PT inovou com a criação da ética da corrupção. E, graças ao desejo do brasileiro de deixar tudo na mão do governo, não demorou para que esquemas de desvio de verbas públicas como o Mensalão viessem às paginas dos jornais. E está sendo assim dia após dia, há 14 anos. O governo Dilma, fecha o panteão de governantes intervencionistas, ao menos por enquanto. O governo Rousseff foi marcado por gestão desastrosa - leia-se intervenções - na economia desabou após à operação Lava Jato, que foi estopim para que a presidente sofresse um processo de impeachment. O povo brasileiro continua acreditando no governo, destarte, todos nosso governantes desde a República, cada um a seu modo, moldaram no inconsciente coletivo do brasileiro a imagem que o governo e o Estado são coisas idênticas. Moldaram imutavelmente a ideia de que o povo sempre necessita do governo para fazer qualquer coisa dar certo. A figura do Estado paternalista encarnada por Getúlio Vargas (o pior ditador), Jango (populista e agente estrangeiro), JK (boêmio deslumbrado) e que atualmente apodrece na face de Lula (progressista corrupto), apesar de apaziguar politicamente o país, destrói sistematicamente as basas de evolução de qualquer povo que preze um desenvolvimento alicerçado no trabalho e no conhecimento. Livro indispensável para entender o motivo dos brasileiros continuarem acreditando no governo mesmo após constarem que o governo não acredita no Brasil.


*O filósofo Olavo de Carvalho discorre com maestria sobre o assunto nos livros A Nova Era e a Revolução Cultural e O Imbecil Coletivo.

Walter A.
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