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24 de abr de 2014

IN UTERO, O ÚLTIMO DISCO DO NIRVANA LANÇADO A 20 ANOS, TEVE AS GRAVAÇÕES INICIADAS NO BRASIL

- por Pedro Antunes, revista Rolling Stone

A maior banda do mundo em 1993 chegou com uma comitiva relativamente pequena ao estúdio BMG-Ariola, no Rio de Janeiro, naquele dia 19 de janeiro. Dois seguranças brasileiros razoavelmente fluentes em inglês cercavam Kurt Cobain, Krist Novoselic e Dave Grohl, o Nirvana. Courtney Love e a recém-empossada baterista do Hole, Patty Schemel, eram constantes apêndices do grupo completado pelo produtores Ian Beveridge e Craig Montgomery. O carioca Dalmo Belloti, hoje também produtor e compositor, foi escalado pela gravadora para ser o engenheiro de som daquelas sessões. Durante três dias, os trabalhos se iniciavam à tarde, às 16h, e duravam até a madrugada. Nos intervalos, enquanto Grohl e Patty conversavam sobre o instrumento que tocavam em comum, Cobain levava Courtney para o estúdio número 1 e deitavam la por horas. "Talvez estivessem dormindo", sugere Belloti.

A dinâmica do Nirvana é traduzida por três estereótipos: "o quietão, Kurt Cobain, "o cara normal", Krist Novoselic, e "o brincalhão", Dave Grohl. Era Cobain quem comandava o precesso, ainda que com frases curtas e pouco espaço para diálogo. "Vamos tocar mais uma?", dizia o vocalista e guitarrista ao ouvir algumas demos registradas ali, sentado no chão em um canto distante da mesa de som Neve 1073. O Nirvana fez questão de gravas as demos em 24 canais, em fitas de 2 polegadas. Belloti lembra de ter estranhado tamanho preciosismo. Ele nao sabia que, ao final daqueles três dias de gravações, a banda pediria para levar embora os oito rolos com mais de 20 horas de material. Belloti também não imaginava, mas ali começava a ser gerado In Utero, o derradeiro disco do grupo.
O Nirvana estava no Brasil para duas apresentações tão lendárias quanto displicentes, nos dias 16 de janeiro, no Estádio do Morumbi, e 23 do mesmo mês, na Praça da Apoteose, dentro do extinto festival Hollywood Rock. "Era como se fosse a Beatlemania˜, conta Patty. ˜Para entrar e sair dos lugares, precisávamos ser escoltados pelos policiais. " 

Nesses shows, foram apresentados pela primeira vez rascunhos do que estaria em In Utero, como “Heart-Shaped Box” – primeiro single do álbum ainda inédito –, tocado ao vivo e registrado também no estúdio BMG-Ariola. Uma das versões testadas pelo trio naqueles três dias de experimentos no Rio chegou a ser lançada na caixa With the Lights Out, juntamente com “I Hate Myself and I Want to Die”, “Milk It”, “Moist Vagina”, “Gallons of Rubbing Alcohol Flow Through the Strip” e “The Other Improv”. Steve Albini, produtor de In Utero, recebeu aquele material bruto para se familiarizar com as faixas que ajudaria o Nirvana a gravar. Canções que entraram no álbum, como “Heart-Shaped Box” e “Milk It”, sofreram poucas alterações perto do que foi gravado por Belloti meses antes. “No Rio, as músicas ainda não tinham títulos. Eram um esboço do que se tornaria In Utero”, relembra Patty. “Tudo estava bem ensaiado por causa da pré-produção e das demos no Rio de Janeiro”, conta Albini, surpreso ao perceber o quão bem preparado estava o grupo quando chegou ao Pachyderm Studio, em Cannon Falls (Minnesota). “A performance era mais confiante no disco”, compara.

A mesa de som Neve 1073 do estúdio carioca chamou a atenção de Ian Beveridge e Craig Montgomery. Meses depois, quando o Nirvana já estava de volta aos Estados Unidos, a sede brasileira da BMG recebeu uma proposta: US$ 1 milhão pela mesa, conforme recorda Belloti. A venda nunca aconteceu. Anos mais tarde, Dave Grohl dedicaria boa parte de seu documentário,Sound City, para louvar uma mesa de som da mesma marca – da qual hoje ele é dono. E foi usando esse equipamento que os remanescentes do Nirvana fizeram uma rara reunião em estúdio – com uma pequena ajuda de Sir Paul McCartney – para gravar a faixa “Cut Me Some Slack”.

Mas os fãs do Nirvana podem sentir como as gravações cariocas funcionaram até mesmo na versão final de In Utero: “Gallons of Rubbing Alcohol Flow Through the Strip”, um improviso de 7 minutos que esparrama distorção e os murmúrios de Cobain, saiu pronta do Rio e se tornou a faixa bônus da versão internacional do disco (a mesma que saiu no Brasil). Na metade da faixa, o cantor pergunta “Mais um solo?” antes de gritar e voltar a se perder pelas cordas da guitarra. Belloti, por sua vez, nunca recebeu os créditos por aquela gravação. Na época, ele trabalhava para a BMG e, por “saber se virar melhor no inglês”, era sempre o escolhido quando artistas estrangeiros queriam usar o estúdio. Para ele, aquelas sessões eram mais ensaios do que qualquer outra coisa.
Difícil de ser encontrado, longe da mídia e quase um anônimo na internet, Dalmo Belloti atualmente possui créditos de músicas em parceria com Latino, como “Festa no Apê”. “Eu não ligo muito para isso, entende? Eles simplesmente pediram as fitas com as gravações e eu dei. Afinal, era o Nirvana”, ele diz. As gravações não aconteceram ao acaso. “Eles sabiam o que estavam fazendo”, diz Patty.
O produtor também se lembra claramente da mania de Cobain em beber café preto sem açúcar. “Eu não entendia o que ele falava, ele dizia: ‘Just black’. Eu não conhecia essa expressão”, conta, rindo. O astro também pareceu feliz ao experimentar os biscoitos disponíveis no estúdio. Com exceção disso, Cobain se recolhia a si mesmo. Courtney mal falava durante o período em que a banda esteve gravando. Mais agitada era Patty Schemel, que grudou no brincalhão Grohl. “Era como se ela estivesse vendo um ídolo ali”, relembra o brasileiro. Ela responde: “Eu tinha ficado impressionada com o início de uma das músicas, aquela bateria: ‘bum-bum-ti-bum-bum-bam’”, conta a baterista, imitando o começo de “Scentless Apprentice". O sorriso largo de Grohl destacava ainda mais a introspecção de Cobain. “O Dave batucava nas minhas costas”, continua Belloti. No último dia no estúdio, o baterista entregou ao engenheiro fotografias recém-reveladas que registravam aqueles momentos, como uma na qual a calcinha de Courtney aparecia enquanto ela se esparramava no chão com o vocalista. “Essa eu perdi, porque enviei para um grande jornal, anos atrás, e nunca me devolveram”, ele conta.
Cobain não deu indícios do que viria a acontecer em 1994, quando se suicidou. Para Belloti, parecia ser apenas um sujeito quieto, mas afável. A presença de Courtney, ele analisa, também teria funcionado como um inibidor da personalidade do líder. Mesmo que a passagem pelo Brasil tenha evidenciado um artista rumo à autodestruição, com notícias de abusos de drogas e festas loucas, Cobain era bastante centrado no estúdio. “Se houve o uso de drogas, foi escondido”, diz o produtor. “A bebida era água mineral e café.” O mundo poderia estar atrás deles, mas, naquele estúdio escondido em Copacabana, o Nirvana parecia estar em paz.
As bases foram gravadas em duas semanas; quase todos os vocais de Kurt Cobain foram registrados em fita em um total de sete horas. Se In Utero é um disco nascido de uma enorme crise – em grande parte a guerra pessoal de Cobain contra a sufocante onda de sorte que tomou a vida dele – foi, por outro lado, feito com um propósito concentrado. A produção quanto-mais-corrosiva-melhor de Steve Albini não é a mais indicada em faixas mais cadenciadas, de vários níveis de dramaticidade, como “Pennyroyal Tea”. Mas o toque ácido do produtor caiu perfeitamente bem no extremismo com que Cobain já havia composto petardos como “Serve the Servants”, “Scentless Apprentice” e “Very Ape”. Na tristeza iluminada do violoncelo de “All Apologies” e “Dumb”, Cobain também deixava claras suas enormes necessidades e diminutas expectativas de satisfação. No fim, o vocalista se provou incapaz de escapar do pânico que o cercava; em vez disso, transformou seus temores em uma arte furiosa e de primeira qualidade.
Por telefone – antes de começar mais uma sessão de gravação em seu estúdio em Chicago, o Electrical Audio –, Albini relembrou as gravações do último disco do Nirvana.
Você nunca havia encontrado o Nirvana antes de gravar In Utero. Como foi esse primeiro contato para produzir o disco? Quais eram as suas ideias para o disco quando ligaram para você?
O contato inicial foi com Kurt. Ele me ligou. Eu escrevi uma carta para a banda explicando como eu normalmente trabalho, dizendo que se eles quisessem que eu trabalhasse com eles, seria daquela forma, entende? Basicamente expliquei a minha filosofia de estúdio. Quando nos encontramos lá, todos meio que já sabiam como funcionaria. A ideia seria que fosse gravado com a banda tocando ao vivo, além de coisas extras que eles quisessem. Mas a gravação inicial seria tocando no estúdio. E foi assim. Tudo começou a partir disso.

Eles responderam a essa carta, ou seja, disseram também como queriam que o álbum soasse? 
Não, eles já conheciam outros discos que eu havia gravado e eram amigos de outras bandas que gravei.

Quais bandas?
Eles conheciam o The Jesus Lizard, gravei com eles várias vezes. O Nirvana também tinha feito uma turnê com Urge Overkill, com quem trabalhei. Eles conheciam bandas amigas minhas de Minneapolis. E, quando cheguei ao estúdio, entreguei a eles uma cópia do disco da PJ Harvey [Rid of Me] que havia feito naquele ano, naquele mesmo estúdio, para dar a eles uma ideia do som de lá.

Então a ideia da banda foi soar mais poderosa no estúdio, é isso?
O primeiro disco deles [Bleach, 1989] foi uma versão bruta e punk rock do que eles fizeram no estúdio; o segundo [Nevermind, 1991] foi mais polido e mais profissional, com uma produção mais pop. Neste, o conceito principal era uma gravação de alta qualidade, mas de forma bastante natural. Menos estilizada do que a do anterior e menos primitiva que a do primeiro disco. Essa foi a ideia.

E o álbum acabou gravado em duas semanas. Houve alguma pressa para terminá-lo?
Não, esse foi o tempo que demoramos para gravar. Foi o tempo que achei que levaria. A gravadora não deu um tempo limitado para que eles gravassem. A gravadora, aliás, ficaria feliz se a banda passasse vários meses trabalhando no disco. A ideia era uma gravação bem básica e natural. E isso simplesmente não demanda tanto tempo para ser feito.

Dizem que a banda havia estabelecido este deadline para a gravação do disco.
Eles tinham muitas músicas para gravar, algo em torno de uma hora de som. Mas eles estavam muito preparados e as coisas foram rápido no estúdio. Terminamos tudo em 12 dias ou algo assim.

Quais foram as suas primeiras impressões sobre o Nirvana? Como funcionava a banda?
Eles me pareceram caras de uma banda normal. Tinham uma postura boa, eram divertidos, sabe? Eles gostavam uns dos outros, gostavam da música deles, gostavam do que estavam fazendo. Instantaneamente, tivemos uma boa relação. Quero dizer, nós não nos tornamos amigos próximos para o resto da vida, mas acho que seria presunçoso da minha parte querer fazer com que isso acontecesse. Mas nós nos demos bem, as gravações seguiram sem problemas e todos se divertiram.

Nevermind tornou o Nirvana gigantesco. As gravações de In Utero foram as primeiras após essa explosão de popularidade. Você acha que eles precisaram tirar um tempo para relaxar, esquecer a pressão e fazer com que as coisas voltassem a ser como eram antes?
O disco foi gravado em um estúdio isolado e isso foi intencional. A banda conseguiria ficar essencialmente sozinha e trabalhar nas músicas sem a interferência do povo da gravadora ou qualquer outro que fosse distraí-los, entende? Era tudo muito... Como dizer?

Profissional, talvez?
Na verdade, com a banda, foi algo muito informal. Mas a ideia era que fossem apenas os caras da banda fazendo um disco. Foi uma decisão consciente para manter as coisas da forma mais simples possível. Fazer com que ninguém, a não ser eles, tivesse influência no produto final. Foi a ideia desde o começo.

Qual é a primeira coisa que vem à mente quando falamos do In Utero? Qual é a sua principal lembrança?
Bom, eu tenho muito orgulho do progresso e da forma como o disco foi feito. Eu sinto que a banda fez um ótimo trabalho, eles estavam muito bem preparados. Da minha parte, sinto que os tratei bem e eles conseguiram um bom resultado. Eu realmente não tenho perspectiva específica além do fato de que todos fizeram um bom trabalho e um disco do qual podem se orgulhar.

Entendo, mas me referia a alguma cena ou momento dentro daquele período de 12 dias que lhe tenha sido marcante. Algo que esteja na sua memória 20 anos depois.
Para falar a verdade, para mim, foi um disco quase como qualquer outro com o qual eu trabalhei. Acho que fiz um bom trabalho, tenho orgulho dele, coisas assim. Mas, para ser honesto, não teve nada de especial.

Por se tratar do Nirvana, que então era gigante, foi difícil ou mais fácil de trabalhar?
Foram sessões muito normais. A banda chegou, nós dissemos “olá”, montamos o equipamento e gravamos. Como qualquer outro. Foi muito normal. Eu tenho boas memórias dessas sessões, porque foram divertidas e tenho orgulho dele, porque afinal é algo de que qualquer um poderia se sentir orgulhoso, mas não foi especial. Eu acho que é um bom disco. Não conhecia muito bem o Nirvana, então sinto-me bem quando vou ouvir as músicas e percebo que há algo especial. A banda fez um bom trabalho, mas não acho que minha participação foi importante. Aquele disco seria muito bom produzido por qualquer um.

Alguma música foi mais trabalhosa e precisou de mais ajustes?
Nada foi muito difícil. Eles fizeram versões diferentes de “Pennyroyal Tea”. Eu não diria que ela foi difícil. A banda queria que ela tivesse um tipo específico de som e precisou de algumas tentativas até chegar a um resultado de que gostassem. Não foi difícil, contudo.

Vocês tinham ideia de que “Rape Me” fosse gerar tanta polêmica?
No estúdio, ninguém pensou que essa música teria algo de especial. Era, claro, uma boa música, mas ninguém pensou que haveria uma controvérsia com ela.

Eu gostaria de saber mais sobre Kurt no estúdio. Como era a relação dele com os companheiros de banda? Ele parecia feliz?
Obviamente, sabe-se que ele tinha problemas com drogas, mas durante o período em que gravávamos o disco ele estava muito produtivo, muito limpo. Como eu disse, esse período da banda foi muito produtivo. Então, é o que eu posso dizer. Eu não era um amigo próximo da banda, então eu não sei dizer precisamente o que mais acontecia na vida deles. No período em que estávamos fazendo o disco, tudo parecia ir bem. Todos se davam bem, havia muita camaradagem entre os três.

Você, então, como uma pessoa que havia acabado de conhecê-los, como entendia a dinâmica entre eles? Quem era o brincalhão?
Eles pareciam uma banda normal, como caras de banda. Contavam piadas, era divertido estar próximo deles. Eles gostavam de passar trotes ao telefone, estavam aproveitando o tempo.

In Utero acabou se tornando o último disco “oficial” do Nirvana. Você sentia que seria especial neste sentido?
Para a minha audição, foi um disco especial. Foi mais especial do que os anteriores. No ponto de vista musical, foi mais agressivo, mais pessoal. Eu gostei do disco como um fã. E não senti isso sobre os outros do Nirvana. Ninguém sabia que aquele seria o último disco.

Você disse que as sessões fluíram bem, a banda tinha todas as músicas ensaiadas. Mas e Kurt, parecia focado?
Durante as gravações, tudo foi legal. Não houve problema, não houve briga, não houve nada diferente. Depois delas, depois que tudo estava terminado, as pessoas da gravadora e algumas pessoas que trabalhavam com o Nirvana não ficaram felizes com o resultado. E essas pessoas foram pressionar a banda para tentar mudar algumas coisas.

Mas eles chegaram a enviar as demos para a gravadora Geffen durante as gravações?
Ninguém ouviu nada até estar pronto. E, então, os caras da gravadora estavam com medo do disco, porque não foi feito da forma convencional: com um produtor profissional, passando muito tempo no estúdio, gastando muito dinheiro, envolvendo a gravadora. Não foi feito nesses moldes, então todos estavam agindo com muito medo.

É um som bastante cru, com guitarras muito pesadas e letras contundentes. A gravadora queria um álbum mais pop e limpo como foi Nevermind?
Honestamente, acho que nenhum deles tinha uma ideia preconcebida sobre o disco. Não tinham uma ideia de estética ou uma sonoridade definida. Tudo o que eles queriam é que fosse feito na fórmula normal e por isso ficaram aterrorizados.

Eles quiseram remixar todas as faixas?
A gravadora queria refazer o disco inteiro. Queriam que a banda abandonasse o disco e começasse de novo. Tudo porque não fizeram da forma convencional.

Então o problema não foi a forma como o disco soou para eles...
Não, eles [os executivos] queriam que a gravadora estivesse envolvida nas decisões desde o começo. É praticamente um problema político. Não tinha nada a ver com a performance, o estilo ou a música. Era tudo político. Queriam que a banda fizesse de uma forma convencional: queriam que eles fossem a um grande estúdio, com um produtor profissional, gastar muito tempo e dinheiro. Queriam que as pessoas da gravadora ouvissem as faixas todos os dias. Esse é o procedimento comum de estúdio. E é com isso que eles ficariam felizes.

No período em que a gravadora pressionou, você conversou com a banda sobre isso?
Durante as gravações, ninguém ouviu as músicas. Depois disso, houve uma campanha silenciosa por parte da gravadora para que eles refizessem o disco.


Sim, mas vocês conversaram durante esse período em que a gravadora pressionou a banda? Como eles reagiram?
Sim. Falava com eles e eles me contaram. Eles continuaram tomando as decisões deles.

Courtney Love esteve presente nas gravações? A presença dela...
[Interrompe] Quem?

Courtney Love.
Ah, sim. Ela não estava lá no começo, mas chegou no fim das gravações.

E a presença dela? Mudou algo com ela por ali, dentro do estúdio?
Mudou um pouco, sim.

Como foi?
Eu não quero falar sobre Courtney Love.

Ok.
Não tenho nada para falar sobre ela.

MÚSICA: SELVAGENS À PROCURA DE LEI

- Selvagens Á Procura de Lei
- Homônimo
- Universal Music, 2013





Deparei-me com essa banda surpreendente de maneira não ortodoxa nos dias atuais [sou do tempo da Rock Brigade, Bizz, Revista 89, tc. ]: nada de blogs, sites de música, redes sociais... Lendo a lista de bandas que participariam do Lolapalooza Brasil deste ano percebi destacar-se em meio à multidão aquele nome intrigante ao passo de ser também por demais criativo. Imaginei que se o nome o nome era bom o som poderia ser também. Tentei acha-lós em meio aos shows transmitidos pela tv por assinatura sem êxito. Diferentemente de outras ocasiões, aquela banda ainda desconhecida martelava em minha mente clamando por uma pesquisada e uma possível audição. Segui à procura dos Selvagens...

E não foi difícil encontrá-los mesmo camuflados no underground cearense. Formado por Nicholas Magalhães (bateria), Rodrigo Brasil (baixo), Gabriel Aragão (voz e guitarra) e Rafael Martins (voz e guitarra). Apesar de ser composto por jovens, o grupo já tem rodagem considerável no circuito de shows independentes mais relevantes do país. Desde o primeiro ep, Talvez Eu Seja Mesmo Calado, Mas Eu Sei Exatamente O Que Eu Quero em 2010 os garotos de Fortaleza vem construindo uma carreira marcante, de bases bastante sólidas, coisa rara hoje em dia onde tudo evanesce rapidamente. Lançaram o primeiro cd em 2011 de modo independente sendo vendido (melhor qualidade ) ou distribuído gratuitamente pelo próprio site da banda - sapdl.com

Com seu som autêntico, estruturado em grandes ícones do rock como as bandas brasilienses como Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial,  Peble Rude tanto esteticamente quanto ideologicamente. Do lado de lá, lembra-se as bandas de Seatle com menos sujeira mais um rebuscamento que lembra o Led Zeppelin nas suas linhas de piano e teclados; a riffs inspirados no Nirvana como também melodias à la Beatles... Algumas canções revelam a idade dos integrantes [todos na casa dos 20 anos] emulando bandas recentes como The Strokes e Arctic Monkeys. Tudo isso de maneira altamente autoral, sem soar caricatura borrada de ninguém muito menos regionais/bairrista, resplandecendo a competência, talento e compromisso com a arte de alta qualidade.

Como não poderia ser, com tamanha dedicação um grupo que comungava dos mesmos objetivos como os Selvagens... não poderia demorar em alcançar repercussão nacional, fato esse que começou a materializar-se na assinatura com uma gravadora e com o lançamento do segundo disco, intitulado laconicamente de Selvagens À Procura de Lei. Continuando sua caminhada rumo ao reconhecimento, a banda compôs um grande disco. Todas as influências que citei acima, tomaram corpo nesses anos de estrada e fluíram naturalmente para novas canções maduras, compostas de letra e músicas acima da média que vem sendo produzida a anos no Brasil.

As letras da banda são desconcertantes, contundentes sem ser agressivos em demasia. Dessa raiva controlada, emanam momentos de pura violência sonora de bateria cadenciada e as adoradas distorções alternados com melodias calmas de piano e violão sem perder a consistência estética. Todas as faixas do disco são ótimas, com destaque para "Brasileiro" belo cartão de visita, canção de grande influência da Legião Urbana e do grunge tem em sua letra grande sarcasmo com a posição social indolente dos brasileiros diante de um país governado por políticos sangue-sugas: "(...) Futebol e cerveja é mesmo fantástico / Ta na Folha / No Povo / No Eclesiástico / Utopia pra você / Radio e tv para tia / Nossos heróis de verdade morreram por covardia / Porque eu sou brasileiro / Meu ano só começa quando passa fevereiro / Pobre, rico ou classe média / Levante a mão quem já sentiu puxar a sua rédea / Nas prisões eles traçam planos de fuga / Enquanto suas esposas puxam as rugas / 
De filhos a herdeiros, sanguessugas / A nação que corre com passos de tartaruga (...) ". O que facilita a identificação com rock engajado de Brasília dos anos 80 é o fato macabro de os problemas nacionais além de serem os mesmos, agora estão maiores do que nunca. 
Em "Sr. Coronel" o mote da canção é espiar antigos demônios entre pai e filho de maneira muito madura ao som do piano: "(...) E quando você diz que nada é mais o mesmo sob o céu / Você mente, sr. Coronel / Você é muito bem letrado / Leu livros e tratados / Dançou a valsa dos coroados / Teve amigos influentes no magistrado / Já rodou os quatro cantos da terra / Mas hoje vive no escuro de uma caverna / Porque lá é o seu lugar / Lá é o seu quartel / Não é mesmo? / Sr. Coronel (...)". 
Já "Massara" estampa o bom e velho rock and roll com guitarras dobradas de riff vigoroso e letra cortante: "(...) Não sou da sua praça, eu sou sem graça, eu admito / Não vou ao seu encontro, eu não sou da sua tribo. / Seu filho está na serra e o meu na favela / Seu filho faz direito e o meu faz a guerra / Meninos de rua, cidade 2000: Somos a praia do futuro do Brasil. (...)". E o disco segue de maneira irretocável sua caminhada sonora altamente agradável com canções não menos importantes como "O Amor Existe, Mas Não Querem Que Você Acredite ": (...) Eu te protejo contra você mesmo / Te carreguei, suportei teu peso, junto ao meu / Tudo o que acontece nessa vida / Não tem nenhuma garantia / Você precisa tomar cuidado, cuidar de si / O mundo pode ser perigoso, eu sei / Que você já sabia mais eu ainda / Preciso te contar das pessoas / De alma bem pequena / Que querem te ver de joelhos / Mais não se engane, não / O amor existe, só não querem / Que você acredite! (...).
"Mucambo Cafundó" continua destacando a verve rockeira de riffs distorcidos e levada grunge destilando estrofes do tipo: "(...) E o que você diz entender / Eu fico louco em saber / Que o futuro é um precipício / E aqui ninguém se importa tanto com Mucambo Cafundó / Ninguém está tão pesado esperando o pior / Fortaleza 3:15, assim eu rondo a cidade / E a cidade à noite ronda a mim / O dia mais honesto cada vez chega mais tarde / Nós moramos no país do futuro / Sob o mesmo céu, erguemos nossos muros (...)". Não vou estragar toda a surpresa desse verdadeiro álbum de rock como a muito não vinha sendo lançado. Entre no site dos caras, baixe ou compre as músicas e concorde comigo.

*Discografia: Talvez Eu Seja Mesmo Calado, Mas Eu Sei Exatamente O Que Eu Quero, 2010 EP; Suas Mentiras Modernas, 2011 EP; Aprendendo A Mentir, 2011; Lado C Single, 2011; Selvagens Á Procura de Lei, 2013.


Walter A.
tempo_moderno@hotmail.com / facebook.com/Walter_blogTM

23 de abr de 2014

ALGUMAS LINHAS SOBRE RESPEITO AO CIDADÃO



Talvez pouca gente saiba, mas temos uma Lei Nacional que regula o acesso a informações previsto no inciso XXXIII do art. 5o, no inciso II do § 3o do art. 37 e no § 2o do art. 216, todos da Constituição Federal. A Lei n. 12.527/2011 afirma claramente que é dever dos órgãos e entidades públicas promover, independentemente de requerimentos, a divulgação em local de fácil acesso, no âmbito de suas competências, de informações de interesse coletivo ou geral por eles produzidas ou custodiadas.

Nesse passo, também cabe aos órgãos e entidades promover, independente de requerimento, a divulgação em seus sítios na Internet de informações de interesse coletivo ou geral. É o que manda o art. 7° do Decreto 7.724/2012, que regulamenta a Lei Nacional acima referida. Não obstante, poucos municípios e órgãos públicos se utilizam de tal expediente para manter informados os cidadãos sobre os repasses e transferências de recursos financeiros que recebem ou despesas, gastos, licitações e pagamento de pessoal.

Seria muito otimismo ou inocência pensar que em União dos Palmares seria diferente. Na Terra da Liberdade pouco se sabe sobre os gastos públicos. Recentemente um cidadão lembrou da Câmara de Vereadores de União dos Palmares, e ao questionar a entidade, por intermédio de um de seus edis, sobre a existência de um "portal da transparência" daquele poder, obteve uma resposta mal educada e ríspida. Ao cidadão foi dito que ele era quem deveria saber onde procurar o "portal".

Bem, o cidadão o fez. Procurou e achou o Portal da Transparência do Tribunal de Contas do Estado de Alagoas, o qual mantém dados do SISTEMA INTEGRADO DE CONTROLE E AUDITORIA PÚBLICA (SICAP). Ali deveriam constar informações sobre a administração direta e indireta dos poderes executivo e legislativo dos município alagoanos de acordo com a Lei n. 12.527/2011 e o Decreto 7.724/201. Até há informações, mas as autoridades competentes esquecem de "completá-las". Se propositalmente ou não ninguém sabe.

Com relação à Câmara de Vereadores de União dos Palmares, por exemplo, entre o pouco colocado à disposição dos cidadãos, pode-se acessar algumas ordem de pagamento de folhas salariais, porém só é possível visualizar o total de dinheiro pago àqueles que são agentes públicos do órgão. Não se consegue acessar nome, cargo, função e salário ou subsídio. Isso acontece a despeito do que estabelece o próprio decreto regulamentador da chamada lei de acesso à informação. A previsão legal dispõe que deverá ser disponibilizada informação sobre remuneração e subsídio recebidos por ocupante de cargo, posto, graduação, função e emprego público, incluindo auxílios, ajudas de custo, jetons e quaisquer outras vantagens pecuniárias, bem como proventos de aposentadoria e pensões daqueles que estiverem na ativa, de maneira individualizada. 

Friso: de maneira individualizada.

A pergunta lógica é: nossos representantes desconhecem a Lei? No caso dos Vereadores, logo eles que recebem do povo para fazer leis. Outra pergunta: Qual o motivo de não divulgar os detalhes do pagamento de pessoal? Há alguma irregularidade? Outros tantos questionamentos existem e outro importante seria: Quem deveria fiscalizar tal irregularidade? Bom, cabe ao cidadão, primeiramente, procurar seu direito de saber onde vai parar seus impostos. Depois vejo a figura do Ministério Público Estadual como responsável por averiguar e solucionar a falta de transparência dos municípios do estado.

Mesmo possuindo leis avançadas, aqueles que deveriam observá-las procedem exatamente ao contrário, jogando no lixo todos os princípios da administração público e de um estado democrático de direito. Enquanto nossos representantes não respeitarem as leis e agirem de acordo com a moral, com probidade, boa-fé e visando o bem comum, esse tipo de falha será o mínimo que teremos como dor de cabeça. Pior acontece todos os dias. Se com o mínimo já é assim, imaginemos o que eles fazem de maior.

Wenndell Amaral

MORRE O AUTOR DE "CEM ANOS DE SOLIDÃO" E "AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA", GABRIEL GARCIA MARQUES


Apesar de a família de Gabriel José de la Concordia Garcia Márques (6 de março de 1927 - 17 de abril de 2014) não falar sobre o assunto, os últimos prognósticos médicos do autor que lutava contra a reincidência de um câncer diagnosticado nos pulmões, gânglios e fígado  - divulgados por jornais do México e da Espanha - indicam uma metástase como fator preponderante para a morte do escritor ganhador do Prêmio Nobel em 1982.  Nascido na Colômbia mas radicado no México, o falecimento do autor erigiu diversas formas de homenagens: o presidente colombiano decretou 3 dias de luto oficial e o do México prestará uma cerimônia na próxima segunda feira.


O corpo de Garcia Márquez será cremado, mais ainda não se sabe se as cinzas permanecerão no México ou retornarão para a Colômbia. Segundo sua irmã mais nova, Aída Garcia Márquez, "Gabito pertence à Col}}ombia e aqui deve ser trazido". O escritor foi um dos principais nomes da literatura latino-americana no século XX. Publicou livros que se tornaram clássicos casando sucesso comercial e qualidade artística como Escreve Ao Coronel (1961), Cem Anos de Solidão (1967), Crônica de Uma Morte Anunciada (1981) e O Amor Nos Tempos do Cólera (1985).


Em conjunto com o peruano Mario Vargas Llosa, os argentinos Julio Cortázar e Jorge Luis Borges, o cubano Alejo Carpentier e do mexicano Carlos Fuentes, Babriel Garcia Márquez formava um grupo de movimento literário denominado pela impressa de  "boom latino-americano". Os livros do grupo alcançaram grande repercussão na Europa dos anos 1960 e 1970, tinham em comum a experimentação da linguagem, o diálogo com o gênero do realismo mágico, a reflexão com os rumos políticos e sociais da América Latina.


O escritor colombiano várias vezes rejeitou o rótulo literário de "realismo mágico ou fantástico". "É só realismo. A realidade é que é mágica. Não invento nada. Não há uma linha nos meus livros que não seja realidade. Não tenho imaginação", proferiu Garcia Márquez acerca do assunto. O TM já havia indicado a alguns anos atrás, o petardo literário Cem Anos de Solidão. Clique no título e acompanhe. Lendo-o, manteremos esse extraordinário escritor eternamente vivo.

Walter A.
tempo_moderno@hotmail.com / facebook.com/Walter_blogTM

22 de abr de 2014

EDITORIAL: TUDO OU NADA

A pouco mais de oito meses, durante um início de tarde de um dia nublado, houve uma mudança abrupta mas já previamente anunciada em minha simplória e irregular caminhada terrena provocada pelo nascer de meu primogênito: herdeiro irrevogável do que existe de bom e de ruim em mim. Acompanhando o fluxo das constantes mudanças daqueles dias que encerravam o mês de junho, sentia-se através dos poros a atmosfera de mudanças incontornáveis que anunciavam-se. Duas escolhas eram possíveis àquela altura do andar da carruagem: permanecer sem refletir a fundo minhas atitudes, meus pensamentos e minhas palavras distanciando-se dia após dia da verdade e me apegando a crenças racionais porém ilógicas em termos metafísicos e filosóficos, num jogo onde o objetivo primeiro era criar uma própria [e falsa] dialética que justificasse tudo que me beneficiava e renegasse tudo que me incomodava, visando apenas reacender através de livros, músicas, filmes, etc. ideologias destrutivas [como o socialismo, comunismo, niilismo, existencialismo, anarquismo, satanismo e demais congêneres de "ismos" que fazem contrapeso ao Bem Supremo alcançado pela busca constante  conhecimento imparcial]

Ou rumar para o caminho do Bem, da Verdade Pura em Essência [Deus] só alcançada por meios inteligíveis onde as sensações básicas do corpo são apenas guias para as verdadeiras nuances que acontecem no campo elevado da mente. Caminho este alcançado apenas com muito ardor e solidão, enquanto o primeiro é muito mais fácil e acessível a qualquer um através de meios humanos de baixa cultura, de acesso facilitado ao prazer carnal imediato em seus mais diversos sentidos. Conversando comigo mesmo questionei-me a raiz daquelas falsas crenças as quais haviam passeado em minha alma, contudo fascinantes dada a natureza material humana somada ao fulgor imperioso adolescente, e vejo agora, serviam para suprir faltas emocionais germinadas em falhas de caráter genéticas e adquiridas do meio.

Caso eu quisesse criar de maneira satisfatória esse ser que adviria como dádiva para poder provê-lo de sentido nesse mundo material, deveria escolher um caminho evolutivo ciente de que junto comigo neste, não iriam apenas a minha pessoa, mais também minha esposa e meu filho. Era imprescindível quebrar a redoma social nociva na qual estava inserido minha errônea pessoa e escapar enquanto era tempo do naufrágio ético-moral-cultural no qual padecemos lentamente de maneira conivente.

Na criação de uma criança é indispensável a transmissão de conhecimento, de educação não viciada ideologicamente, enfim, de sabedoria em estado bruto porém palpável visando formar um ser provido de um raciocínio completo em termos dialéticos. Essa é uma das maiores provas qual passa o homem contemporâneo consciente de seu lugar no mundo como agente modificador na realização de uma sociedade evoluída. A sobrevida das instituições ocidentais só estarão garantidas caso eduquemos com seriedade nossas crianças, visando nada além do florescimento de uma geração virtuosa, onde palavras como moral, ética, justiça, paz, guerra, Deus, amor, não sejam apenas ideais evanescentes e sim modo de viver concreto em todas as esferas sociais. Destarte, se todas as instituições sociais [família, escola, igrejas,governos, etc.] são compostas por pessoais - naturalmente, de outro modo não poderia ser - e estudos apontam todas como falhas em seus objetivos, inclusive algumas das mais importantes instituições sociais veem com o caminhar trôpego dos anos se transfigurando-se/desmembrando-se em instituições bizarras [casamento gay, igrejas indolentes e materialistas, escolas sem disciplina, famílias sem senso ético e moral, governos corrompidos até a medula por interesses escusos, etc.], chega-se sem muito esforço à conclusão que o problema não reside nas instituições em si e sim, logicamente, nas pessoas que às compõem.

Como, nos dias atuais, seres tão inferiores chegaram a patamares tão elevados de poder ao ponto de minar instituições basilares milenares que a tempos vem permitindo que nossos antepassados viessem a se reproduzir desembocando finalmente em nós e nossa prole [atual ou futura]? Platão já respondeu essa pergunta a mais de dois mil anos atrás: deixando de lado o interesse na política, o homem bom entrega seu destino aos inferiores que se interessam por ela. O fato de seres sem o mínimo de noção de moral, de ética, de justiça galgarem tão facilmente o poder nos dias de hoje se dá ao ato continuo e já involuntário de ser indolente para aquilo que não diz respeito a nosso campo de visão. Erroneamente os estudiosos mais badalados das melhores faculdades do mundo gritam esgoeladamente os resultados de seus estudos acadêmicos onde as vilãs da derrocada do modo de vida ocidental são as instituições. E a esses digo: o problema está em nós. O mal que corroi o mundo está nas pessoas. Ou melhor, o mal reside na má educação destas. 

O mundo desnivelado em que vivemos em termos culturais elevados é fruto do descaso para com a sabedoria, com a razão,com a educação latu senso [desde bons modos, higiene até conhecimentos elementares]. E não me venham concordar comigo para em seguida dizer que para resolver esse problema mais que complexo é preciso pagar bem professores, dar alimentação aos alunos e deixá-los trancados na escola oito horas por dia como já é elencado na cartilha de educação da ONU [na qual o Brasil é signatário]. Essas palavras indicam solução mágica e são bastante utilizadas por políticos imediatistas quando não calhordas. Pagar bem ao ponta-de-lança da educação é o mínimo que o governo pode fazer. Porém, não adianta pagar bem ao professor se este não usufrui de infra-estrutura para trabalhar nem tempo para descansar; e mesmo ganhando hipoteticamente 10 mil reais o professor não renderá no serviço se atuar numa escola onde, a título de exemplo, impere a violência e o descaso em relação a tudo e a todos como é lugar comum na maioria das escolas públicas do país.

Nesse modelo falido paradoxalmente em pleno funcionamento de atuação das escolas públicas [e boa parte das privadas], deixar as crianças mais tempo dentro dessas instituições de ensino fracassadas, rapidamente piorará os níveis de aprendizado, pois, se as crianças de hoje não aprendem muita coisa nas quatro horas de duração normal de um dia de aula, aprenderão menos ainda com o dobro do tempo despendido em nada. Sobrecarregar a carga horária já excessiva  dos professores, sem levar em consideração políticas educacionais nem o fato de no Brasil vivenciarmos um déficit de profissionais educadores,  parece ser uma atitude mais que irracional. Para mim, é uma atitude maldosa. Não se precisam da mais horas na escola. Necessita-se, isso sim, de mais qualidade nessas horas já oferecidas de aula e o tempo ocioso restante, deve ser preenchido com leitura densa - porém nunca coercitivas - e atividades físicas. Quando os entendidos da área recomendam deixar as crianças mais tempo na escola, são os pais alienados e egocêntricos possuidores dos piores vícios comportamentais já citados os primeiros a concordar comemorando. O grande engodo em relação a si mesmo e a suas inter-relações com a realidade do mundo mais que complexo atual onde vivem - porém não se preocupam em entendê-lo -, fazem com que enxerguem, pensem e ajam de maneira como se as únicas instituições sociais legitimadas a prover a educação mínima necessária à seus filhos se esgotam nas escolas e congêneres [aulas extras, balé, artes marciais, ou coisa que o valha] e em alguns casos nas igrejas. A família foi a muito excluída e o Estado então... Melhor nem comentar para não sairmos dos trilhos.

Outro setor da vida que deve ser revisto é o relacionado ao sustento da família. O trabalho dignifica o homem, contudo não convém para uma criação razoável privar à prole do convívio paterno/materno em favor da necessidade do aporte financeiro, mesmo este sendo essencial para a manutenção material do gene familiar. Ser um pai/mãe de família do tipo presenteador capitalista, cheio de cuidados supérfluos como escola mais cara, roupas de grife, ultimas tecnologias, e esquecer daquilo que não é possível tocar e muito menos valorar como as virtudes e ensinamentos éticos, morais e demonstrações reais de uma vivência pautada no bem para se chegar à um modo de vida justo para si e para os outros, agrava a incidência de influências negativas da mídia e seus atuais formadores de opinião sob nossos filhos. De certo, não podemos obriga-los a aceitar o bem, mas guiá-los em caminhos onde eles mesmos possam encontrá-lo de maneira menos dolorosa possível. Um convívio harmonioso em todos aspectos entre uma criança e seus pais gera espontaneamente graus elevados e praticamente inquebrantável de confidencialidade; relações mais profundas entre pai/mãe e prole só é alcançado pela via da cumplicidade, desembocando no ambiente perfeito para a disseminação e busca do verdadeiro conhecimento entre as gerações. Enquanto não nos harmonizarmos em família, nunca conseguiremos fazê-lo em sociedade.  


Cultivar o egoísmo afasta-nos de quem gostamos, principalmente de nossos filhos; supervalorizando nossos desejos acaba-se por relaxar a educação dos mesmo nos anos de maior necessidade de disciplina, os primeiros anos de vida. Com o espírito já contaminado pela indolência esses rebentos acabam por receberem educação de tutores do mal disseminados nos mais diversos segmentos da sociedade, tendo como base a mídia de massa atual, renegando de forma clara o dever divino de zelar de modo incondicional por sua prole. A lei nacional, em seu Código Penal no art. 246 diz que: "Deixar, sem justa causa, de prover à instrução primária de filho em idade escolar: Pena - detenção, de 15 (quinze) dias a 1 (um) mês. Essa lei incide naqueles pais que não matriculam seus filhos em escola. Contudo, a lei deveria ir além e alcançar o agente que deixa, influencia ou apresenta-se músicas de baixo calão, programas de tv repletos de nudez e enredos amorais e anti-éticos que nada representam um ser humano pensante ou qualquer outro objeto seja ele material ou intelectual degradante à criança, garantido o agravante caso os acusados fossem pais ou responsáveis legais da criança. 

As gerações passadas de brasileiros, moldadas numa disciplina rígida porém sem profundidade espiritual e intelectual e as novas gerações detentoras dos mesmos vícios do passado elevados ao cubo e substituindo a disciplina por uma pré-anarquia, trabalharam inconscientemente e incessantemente para perdurar esse ambiente hostil para com o Bem e para com a Verdade. Nossas almas a séculos veem sendo forjadas numa fornalha alimentada pela ambição, corrupção, pornografia e demais inumeráveis imoralidades e infelizmente, com a disseminação da tecnologias do fim dos anos 90 para cá, a humanidade vem chafurdando cada dia com mais apetite na lama negra da escuridão mental e espiritual. Os rebentos das neófitas gerações são transformados, tanto dentro quanto fora de casa, pela cultura da violência, do descartável, do individualismo agressivo, em massas de pessoas cínicas, niilistas, ateus, religiosos de fachada, psicopatas, intelectuais sem princípios morais e éticos, megalomaníacos e demais variantes de seres inferiores. E mais uma vez exclamo em alto e bom tom: são essas pessoas deformadas por dentro e em alguns casos por fora apesar da ótima aparência montada com os acessórios mais caros da moda, os detentores dos mais altos cargos nas principais instituições sociais. Esses obscuros formadores de opinião, infortunadamente servem como exemplos para as classes menos favorecidas financeiramente e ainda emergente na cultura, tornado estas em almas vacilantes, assimilando os vícios dos donos do poder e tendo como consequência a destruição do caráter benéfico que um dia poderia brotar nos filhos da nação. Nossos filhos terminam por assimilar a baixa cultura predominante através da mídia prostituída nacional.

Garantindo um ambiente propício na escola [garantido pelo Estado] em conjunção com um ambiente calmo e estimulante em casa, conscientizando e ensinando as crianças a serem críticas e racionais porém sem perder o contato com a metafísica e separando o importante do supérfluo, otimizamos nossa capacidade básica de diferenciação entre nós e os demais animais: pensar para existir, com o passar dos anos, virão ao mundo pessoas boas, bem criadas, amantes acima de tudo da sabedoria, da moral, do Bem e da Justiça, poderemos começar a viver um novo mundo: menos violento, igualitário em suas devidas proporções e consciente de seu dever de evolução do conhecimento verdadeiramente útil a espécie humana em detrimento da ciência de entretenimento vazio através da cultura baixa dos das de hoje alocado nos subconsciente de um número cada vez maior de pessoas saudáveis. O banho de sangue de 40.000 jovens mortos no Brasil só estancará quando moldarmos nossos jovens para o Bem desde cedo numa espécie de tudo ou nada contra a maldade que se alastra como fogo de palha na alma dos mais jovens. Enquanto não equalizarmos e educação dos jovens continuaremos sem saber votar, ser votado nem muito menos governar e ser governados, em suma, nunca seremos cidadães na real acepção do termo. Atentem que Platão já dizia isso a mais de 2.000 anos e o mundo continua de mal a pior e sem previsão de melhoras.

Março, 2014.


walter a.
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