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15 de nov de 2014

FILME: BAIXIO DAS BESTAS

Baixio das Bestas, 2006.
Dir.: Cláudio Assis
Com:Caio Blat, Dira Paes, Matheus Natchergaele, Mariah Teixeira, etc.
Dur.: 84 min.

O imensurável abismo social crescente entre abonados e desabonados  que descaminha milhões de vidas brasileiras é a locomotiva que traciona a película do pernambucano Claudio de Assis. Em contraponto às comédias mela-cuecas que inundam os cinemas nacionais produzidas em sua maioria pelos insípidos irmãos Marinho e suas Organizações Globo [que em sua maioria só servem para desvirtuarem a Lei Rouanet, cooptando dinheiro público para bolsos de produtores e diretores sem nenhum compromisso com a Cultura, muito menos com a Arte, mirando apenas o alvo do lucro e promoção pessoal de alguns “seletos” atores com produtos nivelados por baixo], os filmes dirigidos por esse talentoso diretor são pontuais em captar de forma real e crua a realidade que nos rodeia paralelamente a nossas ordinárias vidas, que por diversos fatores psicossociais deixamos de identifica-la em meio à nossa atual falha representação do mundo inteligível. Foi assim no premiado Amarelo Manga e em Baixio das Bestas ele fecha sua trilogia acerca do desamor, ódio e consequente violência que advêm basicamente da destruição sistemática das instituições sociais. 

Abordando as relações parentais entre ascendentes e descendentes através dos núcleos dos personagens principais, a franzina adolescente Auxiliadora, [interpretada de maneira surpreendente por Mariah Teixeira] e o jovem Cícero, filho de família tradicional da Zona da Mata pernambucana [personificado pelo sempre competente Caio Blat] a história vai se desenvolvendo de maneira peculiarmente sombria, levantando questões morais e éticas que veem se perdendo com o avançar dos tempos até nas áreas populacionais mais distantes das pérfidas grandes cidades. Isso, se é que existiram reflexões éticas e morais no âmago dos conterrâneos perpetradores de Auxiliadora naquela localidade tão longínqua da civilização. Depois do filme firmou-se a seguinte pergunta em minha mente: a moral e a ética estão se esvaindo rapidamente do espírito do brasileiro ou nunca chegaram a fazer parte significativamente de nós? O avô de Auxiliadora, seu Heitor [na minha ignorante opinião um alterego de Fernando Teixeira devido a tão sólida interpretação] é um senhor doente, de idade avançada que apesar da aparência inocente tem dentro de si nada além de maldade exteriorizada por uma falsa moral e uma falsa ética que fica evidente já na primeira cena do filme onde o mesmo exibe a neta nua relutante nos fundos de uma igreja abandonada em troca de insignificantes valores pecuniários. O universo da trama tem como núcleo a adolescente que ao ser vista sendo exibida pelo avô por Cícero, perde o status de pessoa e se transforma para ele em um objeto. Subentende-se que havia aflorado em Cícero um amor platônico pela menina que depois da descoberta do abuso forçado pelo avô, transmutou-se em ódio.


Se nas capitais dos Estados o inferno anda instalando-se em ritmo avassaladoramente constante, imagine que a situação da segurança nos rincões desse primitivo Brasil não é nada alentadora já que o Estado não se faz presente nem nas cidades quanto mais onde não se tem nem estrutura básica de saneamento e estradas... Não há Estado no interior do Brasil. Aqui, as leis são consuetudinárias, ou seja, baseadas no costume não necessitam estar escritas e muitas vezes são feitas na hora em detrimento dos menos favorecidos. O costume não costuma utilizar-se de um mínimo que seja de isonomia, tratando diferentes como iguais. No mundo real o poder econômico plana soberano até mesmo sobre a Justiça. São os resultados desses mecanismos perversos somado à deterioração moral pregada pelas novas correntes políticas vigentes que Baixio das Bestas transmuta excepcionalmente para a tela.


Cícero é o típico jovem de classe média alta interiorano que estuda na capital durante a semana e nos fins, às vezes, vai “visitar a família” no interior. Na verdade o tempo do jovem era gasto com bebidas, drogas e sexo com as prostitutas locais sempre em companhia de Everardo [magistralmente interpretado por Matheus Nachtergaele], um homem já formado que insistia em permanecer num mundo próprio onde valiam apenas suas próprias regras, como um Peter Pan sertanejo. Subentende-se que exista uma grande dose de homossexualidade entre os dois, visto que são correntes as cenas de nudez e elogios rasgados entre eles ao mesmo tempo que ambos revelam-se terríveis carrascos de mulheres, seja a mãe, a namorada ou a prostituta do bordel. Porém, pela moral vigente na hipócrita e demagoga sociedade, Cícero e Everardo preferem manterem-se ligados por laços das marcas de violência lato sensu [verbal, psicológica, visual e até mesmo física] que deixam por onde passam.Alguns estudiosos da mente humana afirmam que uma homossexualidade reprimida pode gerar relacionamentos doentios, porém sem nunca tocarem nem mesmo no assunto e muitas vezes o recriminarem quando não destilam a pura “homofobia”. A pressão social faz que assumam relacionamentos normais para encobrir no inconsciente seus verdadeiros desejos, e essa prática acaba muitas vezes por desembocar em tragédias que não se restringem aos dois envolvidos, como é retratado no filme. O lado claro do filme é Maninho, um homem que se divide entre os únicos subempregos oferecidos para viver mais próximo da dignidade e o talento para o Maracatu. Chega ao ponto de oferecer-se para, sozinho, cavar uma grande fossa atrás da casa de Auxiliadora só para vê-la. Fica exposto então a dualidade que a menina desperta entre o amor de Maninho e o ódio de Cícero, que apenas ao vê-la sendo exposta pelo avô – contra sua vontade -  a toma como um bibelô usado.

Os núcleos de Auxiliadora e de Cícero, assim como na vida real, não se encontram a não ser no momento crucial e violento do filme entre os dois personagens principais. Neste meio tempo, é explicito diversas atitudes reprováveis para qualquer ser humano que ainda possa ter um mínimo de noção daquilo que é bom, daquilo que evolui as sociedades para uma vivência mais harmoniosa possível. Vivemos numa realidade onde a paz é passageira, sempre quebrada por notícias de atitudes que ferem o simples e natural direito à vida, a liberdade do próprio corpo muitas vezes culminando com a morte.  As famílias amenizam ao máximo as transgressões crescentes dos descendentes ou descendentes até culminarem em tragédias que destroem, às vezes por completo, vidas de inocentes.

Que mais Assis despontem na cena nacional e menos diretores bunda-moles do tipo que só grava comédia global, assim nossas mazelas não serão esquecidas, jogadas para debaixo do tapete. Atitudes essas que podem até gerar risos e gargalhadas momentâneas, porém são impossíveis de construir uma sociedade próspera, harmônica entre si e igualitária. Baixio é uma amostra fiel da inconsequentemente sociedade que damos forma, capturando como pano de fundo para o desenrolar da história um típico lugarejo que reflete bem as discrepâncias sociais abordadas pelo roteiro corporificado lealmente pelo talentoso elenco. Baixio... pela sua qualidade técnica, de interpretação e profundidade social, já é um clássico do cinema nacional.

Walter A.
tempo_moderno@hotmail.com / facebook.com/walterblogTM  

11 de nov de 2014

EDITORIAL: "Que país?! O Brasil não é um país, é um time de futebol" "

A frase que dá título ao texto, extraída do filme Redentor [2004] do diretor Cláudio Torres,  expressa com popular sabedoria o status quo, a condição de existência de nosso vilipendiado país. A máxima da "pátria de chuteiras" criada pelo escritor Nelson Rodrigues nunca foi tão atual, intrínseca e motivadora de ser e estar da grande maioria dos brasileiros com a realização da Copa do Mundo 2014. Nossos jovens não possuem princípios políticos, filosóficos ou culturais e toda a energia de efervescente idade se materializa em ídolos banais, sem profundidade intelectual que não passam de atores do show business agindo como marionetes do sistema que ajudam a atrofiar e manter ainda mais presa às jovens mentes das tenras gerações com sua submúsica, subliteratura, subfilmes, subtudo.

Tudo bem, estão havendo manifestações quase que diárias diárias contra tudo de podre que a política nacional sustenta. Contudo, aqueles cidadãos que estão indo às ruas, apesar de exprimirem a vontade de milhões de brasileiros, são minorias; e como toda minoria, sofrem, e muito na mão de ferro do Estado, que, mesmo sendo "democrático" nunca deixará de ser violento pois é formado por homens de mentalidade ainda em desenvolvimento intelectual. Nem os milenares Estados europeus e asiáticos conseguiram ainda tamanha evolução social - também lá as manifestações [quando permitidas] são abafadas com atitudes violentas. E quanto a isso todos já sabem: violência gera mais violência. Não podemos esquecer o fator de influência dos partidos políticos e seus militantes que sempre contribuem para a radicalização dos protestos, fato este que favorece os governos pois retira a legitimidade reivindicatória daquilo que deveria ser um movimento espontâneo da vontade popular. 

Vamos aos números. Fatos baseados em números são impossíveis de refutar. O Rio de Janeiro, cidade que conteve o maior número de manifestantes - cerca de 100 mil segundo a polícia - tem segundo o IBGE 6.323.037 hab. Sendo assim, apenas 1,5% da população participou das manifestações. A Polícia também afirmou que 90% dos manifestantes tinha a faixa etária entre 17 e 27 anos, ou seja, manifestação formada por - infelizmente - uma MINORIA jovem. E essa minoria merece aplausos já que mesmo com os efeitos colaterais [depredações, espancamentos, etc.] não houve mortos. A polícia, formada em sua maioria como toda empresa nacional por brasileiros alienados políticos e filosóficos, agiu como mandou seu regulamento criado e engessado pelos militares da ditadura mas posto em prática pelos governantes democráticos que exercem seus mandatos cercados das mais altas regalias enquanto o povo come, dorme e vive mal sem educação, saúde ou muito menos segurança.

Enquanto esse números pequenos de verdadeiros brasileiros saiam às ruas para reivindicar simplesmente "um país melhor", a maioria da população cega e alheia a seus próprios problemas, se deixa levar pela mídia fascista - organizações Globo e seus concorrentes de mesma índole - e crucificam quem está dando, literalmente, a cara pra bater. É um absurdo andar pelas ruas e ver pais de famílias que vivem para trabalhar e enriquecer burgueses, taxando de "vagabundos, maloqueiros e maconheiros" esses jovens que estão nas ruas do país exteriorizando um sentimento que mesmo que você não reconheça que sente, é sentido por todos nós que assistimos sentados em nossos sofás todos os dias e mal vencer o bem, o honesto ser passado pra trás enquanto o malandro bem vestido usufrui luxo em detrimento do pobre que anda em trapos. Esse sentimento chama-se impunidade. Um pequena, mas barulhenta parte do Brasil mostrou que está farta disso, contudo as próprias manifestações não chegam a nenhum lugar. Começam e terminam fugazmente, como fogo de palha.

Há muito chão para que possamos organizar melhor a sociedade civil para que protestos mais vigorosos porém mais eficazes, sem tanta violência e com mais discursos coerentes seguidos de ações positivas, possam se enraizar pelo restante da nação. Se 10% de cada capital do país sair às ruas para cobrar de forma efusiva como estão fazendo agora sobre questões sociais importantes [reforma política, educação digna, saúde decente, segurança que funcione, punições severas para políticos corruptos, política de drogas, etc.] seríamos um país em desenvolvimento de verdade e não essa farsa subdesenvolvida repleta de falsos ricos sustentados por verdadeiros pobres que somos agora. O Brasil pode ser comparado a uma família que rui silenciosamente em sua casa própria: tem um teto para morar porém, endivida-se para comer ao ponto de alugar os quartos da casa para estranhos [países estrangeiros comunistas e socialistas e suas empresas].

Não será novidade se, dia após dia, esses movimentos tão efervescentes se desmancharem. As raposas engravatadas que possuem o cetro do poder, sabem jogar e estão sempre preparadas para manifestações. Afinal, muitos de nossos governantes - de esquerda ou direita - são crias da ditadura. E assim sendo, cancelaram o aumento das passagens ou até mesmo diminuirão o valor; eles sabem que cedendo a alguns pontos os movimentos perderão força e a opinião alienada do povo, fará cessar o grito dos excluídos. O sucesso dos políticos em contornar momentos de reivindicações legítimas como essas está baseado no poder de alienação que a mídia, mais precisamente a TV e os jornais, amplificados pela massa de ignorantes, possui.

Como disse no começo do texto, a baixa porcentagem dos jovens que estão nas ruas protestando contrasta com a maioria alienada, filhos de burgueses mal criados, que cresceram vendo seus país ganharem a vida envolvidos direta ou indiretamente com o ilícito - nepotismo, clientelismo, coronelismo, uso indevido da máquina pública, corrupção ativa/passiva etc. - Os populares "filhinhos de papai" das mais variadas classes sociais estão alheios quando não contra aos movimentos de mudança, pois é óbvio que a mudar o Brasil vai mexer com a classe burguesa e seus congêneres que mama deitada em finos lençóis nas tetas do governo em suas diversas esferas. Meritocracia neles!

A presidente Dilma afirmou que o governo não iria bancar os gastos bilionários da Copa do Mundo e mostrou um projeto onde a iniciativa privada iria encabeçar os investimentos. Hoje, a menos de um ano para o início dos jogos, o custo oficial para os cofres públicos brasileiros é de 28 bilhões. Isso mesmo. Pra você que é um cidadão de classe média com alta alienação política, os movimentos são apenas por 0,20 centavos. Pra quem usa um pouco mais do cérebro, os movimentos são por causa de 28 BILHÕES DE REAIS dado a burgueses empresários que estão se lixando para o país.

Cadê as escolas, hospitais, segurança, cultura? Bilhões gastos em estádios que só servirão à ratos ligados ao futebol no futuro. Vaias para Dilma e Blatter foram pouco. Eles mereciam ser fuzilados, assim como o Marin, o Lula, FHC e demais demagogos que à cada 4 anos afundam o Brasil na merda, endividando o país, não investindo em educação, em tecnologia e acima de tudo, vendendo à preço de banana nossas riquezas. Enquanto crianças ainda morrem por falta de saneamento, milhares são mortos por conta das drogas, o governo paga diárias de até R$500 para que seus funcionários viagem para assistir os jogos da Copa das Confederações. Esse ó o Brasil.

Maio, 2013.

Walter A.
tempo_moderno@hotmail.com / facebook.com/walterblogTM