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15 de nov de 2014

FILME: BAIXIO DAS BESTAS

Baixio das Bestas, 2006.
Dir.: Cláudio Assis
Com:Caio Blat, Dira Paes, Matheus Natchergaele, Mariah Teixeira, etc.
Dur.: 84 min.

O imensurável abismo social crescente entre abonados e desabonados  que descaminha milhões de vidas brasileiras é a locomotiva que traciona a película do pernambucano Claudio de Assis. Em contraponto às comédias mela-cuecas que inundam os cinemas nacionais produzidas em sua maioria pelos insípidos irmãos Marinho e suas Organizações Globo [que em sua maioria só servem para desvirtuarem a Lei Rouanet, cooptando dinheiro público para bolsos de produtores e diretores sem nenhum compromisso com a Cultura, muito menos com a Arte, mirando apenas o alvo do lucro e promoção pessoal de alguns “seletos” atores com produtos nivelados por baixo], os filmes dirigidos por esse talentoso diretor são pontuais em captar de forma real e crua a realidade que nos rodeia paralelamente a nossas ordinárias vidas, que por diversos fatores psicossociais deixamos de identifica-la em meio à nossa atual falha representação do mundo inteligível. Foi assim no premiado Amarelo Manga e em Baixio das Bestas ele fecha sua trilogia acerca do desamor, ódio e consequente violência que advêm basicamente da destruição sistemática das instituições sociais. 

Abordando as relações parentais entre ascendentes e descendentes através dos núcleos dos personagens principais, a franzina adolescente Auxiliadora, [interpretada de maneira surpreendente por Mariah Teixeira] e o jovem Cícero, filho de família tradicional da Zona da Mata pernambucana [personificado pelo sempre competente Caio Blat] a história vai se desenvolvendo de maneira peculiarmente sombria, levantando questões morais e éticas que veem se perdendo com o avançar dos tempos até nas áreas populacionais mais distantes das pérfidas grandes cidades. Isso, se é que existiram reflexões éticas e morais no âmago dos conterrâneos perpetradores de Auxiliadora naquela localidade tão longínqua da civilização. Depois do filme firmou-se a seguinte pergunta em minha mente: a moral e a ética estão se esvaindo rapidamente do espírito do brasileiro ou nunca chegaram a fazer parte significativamente de nós? O avô de Auxiliadora, seu Heitor [na minha ignorante opinião um alterego de Fernando Teixeira devido a tão sólida interpretação] é um senhor doente, de idade avançada que apesar da aparência inocente tem dentro de si nada além de maldade exteriorizada por uma falsa moral e uma falsa ética que fica evidente já na primeira cena do filme onde o mesmo exibe a neta nua relutante nos fundos de uma igreja abandonada em troca de insignificantes valores pecuniários. O universo da trama tem como núcleo a adolescente que ao ser vista sendo exibida pelo avô por Cícero, perde o status de pessoa e se transforma para ele em um objeto. Subentende-se que havia aflorado em Cícero um amor platônico pela menina que depois da descoberta do abuso forçado pelo avô, transmutou-se em ódio.


Se nas capitais dos Estados o inferno anda instalando-se em ritmo avassaladoramente constante, imagine que a situação da segurança nos rincões desse primitivo Brasil não é nada alentadora já que o Estado não se faz presente nem nas cidades quanto mais onde não se tem nem estrutura básica de saneamento e estradas... Não há Estado no interior do Brasil. Aqui, as leis são consuetudinárias, ou seja, baseadas no costume não necessitam estar escritas e muitas vezes são feitas na hora em detrimento dos menos favorecidos. O costume não costuma utilizar-se de um mínimo que seja de isonomia, tratando diferentes como iguais. No mundo real o poder econômico plana soberano até mesmo sobre a Justiça. São os resultados desses mecanismos perversos somado à deterioração moral pregada pelas novas correntes políticas vigentes que Baixio das Bestas transmuta excepcionalmente para a tela.


Cícero é o típico jovem de classe média alta interiorano que estuda na capital durante a semana e nos fins, às vezes, vai “visitar a família” no interior. Na verdade o tempo do jovem era gasto com bebidas, drogas e sexo com as prostitutas locais sempre em companhia de Everardo [magistralmente interpretado por Matheus Nachtergaele], um homem já formado que insistia em permanecer num mundo próprio onde valiam apenas suas próprias regras, como um Peter Pan sertanejo. Subentende-se que exista uma grande dose de homossexualidade entre os dois, visto que são correntes as cenas de nudez e elogios rasgados entre eles ao mesmo tempo que ambos revelam-se terríveis carrascos de mulheres, seja a mãe, a namorada ou a prostituta do bordel. Porém, pela moral vigente na hipócrita e demagoga sociedade, Cícero e Everardo preferem manterem-se ligados por laços das marcas de violência lato sensu [verbal, psicológica, visual e até mesmo física] que deixam por onde passam.Alguns estudiosos da mente humana afirmam que uma homossexualidade reprimida pode gerar relacionamentos doentios, porém sem nunca tocarem nem mesmo no assunto e muitas vezes o recriminarem quando não destilam a pura “homofobia”. A pressão social faz que assumam relacionamentos normais para encobrir no inconsciente seus verdadeiros desejos, e essa prática acaba muitas vezes por desembocar em tragédias que não se restringem aos dois envolvidos, como é retratado no filme. O lado claro do filme é Maninho, um homem que se divide entre os únicos subempregos oferecidos para viver mais próximo da dignidade e o talento para o Maracatu. Chega ao ponto de oferecer-se para, sozinho, cavar uma grande fossa atrás da casa de Auxiliadora só para vê-la. Fica exposto então a dualidade que a menina desperta entre o amor de Maninho e o ódio de Cícero, que apenas ao vê-la sendo exposta pelo avô – contra sua vontade -  a toma como um bibelô usado.

Os núcleos de Auxiliadora e de Cícero, assim como na vida real, não se encontram a não ser no momento crucial e violento do filme entre os dois personagens principais. Neste meio tempo, é explicito diversas atitudes reprováveis para qualquer ser humano que ainda possa ter um mínimo de noção daquilo que é bom, daquilo que evolui as sociedades para uma vivência mais harmoniosa possível. Vivemos numa realidade onde a paz é passageira, sempre quebrada por notícias de atitudes que ferem o simples e natural direito à vida, a liberdade do próprio corpo muitas vezes culminando com a morte.  As famílias amenizam ao máximo as transgressões crescentes dos descendentes ou descendentes até culminarem em tragédias que destroem, às vezes por completo, vidas de inocentes.

Que mais Assis despontem na cena nacional e menos diretores bunda-moles do tipo que só grava comédia global, assim nossas mazelas não serão esquecidas, jogadas para debaixo do tapete. Atitudes essas que podem até gerar risos e gargalhadas momentâneas, porém são impossíveis de construir uma sociedade próspera, harmônica entre si e igualitária. Baixio é uma amostra fiel da inconsequentemente sociedade que damos forma, capturando como pano de fundo para o desenrolar da história um típico lugarejo que reflete bem as discrepâncias sociais abordadas pelo roteiro corporificado lealmente pelo talentoso elenco. Baixio... pela sua qualidade técnica, de interpretação e profundidade social, já é um clássico do cinema nacional.

Walter A.
tempo_moderno@hotmail.com / facebook.com/walterblogTM  

11 de nov de 2014

EDITORIAL: "Que país?! O Brasil não é um país, é um time de futebol" "

A frase que dá título ao texto, extraída do filme Redentor [2004] do diretor Cláudio Torres,  expressa com popular sabedoria o status quo, a condição de existência de nosso vilipendiado país. A máxima da "pátria de chuteiras" criada pelo escritor Nelson Rodrigues nunca foi tão atual, intrínseca e motivadora de ser e estar da grande maioria dos brasileiros com a realização da Copa do Mundo 2014. Nossos jovens não possuem princípios políticos, filosóficos ou culturais e toda a energia de efervescente idade se materializa em ídolos banais, sem profundidade intelectual que não passam de atores do show business agindo como marionetes do sistema que ajudam a atrofiar e manter ainda mais presa às jovens mentes das tenras gerações com sua submúsica, subliteratura, subfilmes, subtudo.

Tudo bem, estão havendo manifestações quase que diárias diárias contra tudo de podre que a política nacional sustenta. Contudo, aqueles cidadãos que estão indo às ruas, apesar de exprimirem a vontade de milhões de brasileiros, são minorias; e como toda minoria, sofrem, e muito na mão de ferro do Estado, que, mesmo sendo "democrático" nunca deixará de ser violento pois é formado por homens de mentalidade ainda em desenvolvimento intelectual. Nem os milenares Estados europeus e asiáticos conseguiram ainda tamanha evolução social - também lá as manifestações [quando permitidas] são abafadas com atitudes violentas. E quanto a isso todos já sabem: violência gera mais violência. Não podemos esquecer o fator de influência dos partidos políticos e seus militantes que sempre contribuem para a radicalização dos protestos, fato este que favorece os governos pois retira a legitimidade reivindicatória daquilo que deveria ser um movimento espontâneo da vontade popular. 

Vamos aos números. Fatos baseados em números são impossíveis de refutar. O Rio de Janeiro, cidade que conteve o maior número de manifestantes - cerca de 100 mil segundo a polícia - tem segundo o IBGE 6.323.037 hab. Sendo assim, apenas 1,5% da população participou das manifestações. A Polícia também afirmou que 90% dos manifestantes tinha a faixa etária entre 17 e 27 anos, ou seja, manifestação formada por - infelizmente - uma MINORIA jovem. E essa minoria merece aplausos já que mesmo com os efeitos colaterais [depredações, espancamentos, etc.] não houve mortos. A polícia, formada em sua maioria como toda empresa nacional por brasileiros alienados políticos e filosóficos, agiu como mandou seu regulamento criado e engessado pelos militares da ditadura mas posto em prática pelos governantes democráticos que exercem seus mandatos cercados das mais altas regalias enquanto o povo come, dorme e vive mal sem educação, saúde ou muito menos segurança.

Enquanto esse números pequenos de verdadeiros brasileiros saiam às ruas para reivindicar simplesmente "um país melhor", a maioria da população cega e alheia a seus próprios problemas, se deixa levar pela mídia fascista - organizações Globo e seus concorrentes de mesma índole - e crucificam quem está dando, literalmente, a cara pra bater. É um absurdo andar pelas ruas e ver pais de famílias que vivem para trabalhar e enriquecer burgueses, taxando de "vagabundos, maloqueiros e maconheiros" esses jovens que estão nas ruas do país exteriorizando um sentimento que mesmo que você não reconheça que sente, é sentido por todos nós que assistimos sentados em nossos sofás todos os dias e mal vencer o bem, o honesto ser passado pra trás enquanto o malandro bem vestido usufrui luxo em detrimento do pobre que anda em trapos. Esse sentimento chama-se impunidade. Um pequena, mas barulhenta parte do Brasil mostrou que está farta disso, contudo as próprias manifestações não chegam a nenhum lugar. Começam e terminam fugazmente, como fogo de palha.

Há muito chão para que possamos organizar melhor a sociedade civil para que protestos mais vigorosos porém mais eficazes, sem tanta violência e com mais discursos coerentes seguidos de ações positivas, possam se enraizar pelo restante da nação. Se 10% de cada capital do país sair às ruas para cobrar de forma efusiva como estão fazendo agora sobre questões sociais importantes [reforma política, educação digna, saúde decente, segurança que funcione, punições severas para políticos corruptos, política de drogas, etc.] seríamos um país em desenvolvimento de verdade e não essa farsa subdesenvolvida repleta de falsos ricos sustentados por verdadeiros pobres que somos agora. O Brasil pode ser comparado a uma família que rui silenciosamente em sua casa própria: tem um teto para morar porém, endivida-se para comer ao ponto de alugar os quartos da casa para estranhos [países estrangeiros comunistas e socialistas e suas empresas].

Não será novidade se, dia após dia, esses movimentos tão efervescentes se desmancharem. As raposas engravatadas que possuem o cetro do poder, sabem jogar e estão sempre preparadas para manifestações. Afinal, muitos de nossos governantes - de esquerda ou direita - são crias da ditadura. E assim sendo, cancelaram o aumento das passagens ou até mesmo diminuirão o valor; eles sabem que cedendo a alguns pontos os movimentos perderão força e a opinião alienada do povo, fará cessar o grito dos excluídos. O sucesso dos políticos em contornar momentos de reivindicações legítimas como essas está baseado no poder de alienação que a mídia, mais precisamente a TV e os jornais, amplificados pela massa de ignorantes, possui.

Como disse no começo do texto, a baixa porcentagem dos jovens que estão nas ruas protestando contrasta com a maioria alienada, filhos de burgueses mal criados, que cresceram vendo seus país ganharem a vida envolvidos direta ou indiretamente com o ilícito - nepotismo, clientelismo, coronelismo, uso indevido da máquina pública, corrupção ativa/passiva etc. - Os populares "filhinhos de papai" das mais variadas classes sociais estão alheios quando não contra aos movimentos de mudança, pois é óbvio que a mudar o Brasil vai mexer com a classe burguesa e seus congêneres que mama deitada em finos lençóis nas tetas do governo em suas diversas esferas. Meritocracia neles!

A presidente Dilma afirmou que o governo não iria bancar os gastos bilionários da Copa do Mundo e mostrou um projeto onde a iniciativa privada iria encabeçar os investimentos. Hoje, a menos de um ano para o início dos jogos, o custo oficial para os cofres públicos brasileiros é de 28 bilhões. Isso mesmo. Pra você que é um cidadão de classe média com alta alienação política, os movimentos são apenas por 0,20 centavos. Pra quem usa um pouco mais do cérebro, os movimentos são por causa de 28 BILHÕES DE REAIS dado a burgueses empresários que estão se lixando para o país.

Cadê as escolas, hospitais, segurança, cultura? Bilhões gastos em estádios que só servirão à ratos ligados ao futebol no futuro. Vaias para Dilma e Blatter foram pouco. Eles mereciam ser fuzilados, assim como o Marin, o Lula, FHC e demais demagogos que à cada 4 anos afundam o Brasil na merda, endividando o país, não investindo em educação, em tecnologia e acima de tudo, vendendo à preço de banana nossas riquezas. Enquanto crianças ainda morrem por falta de saneamento, milhares são mortos por conta das drogas, o governo paga diárias de até R$500 para que seus funcionários viagem para assistir os jogos da Copa das Confederações. Esse ó o Brasil.

Maio, 2013.

Walter A.
tempo_moderno@hotmail.com / facebook.com/walterblogTM  

8 de ago de 2014

Ignorância e falta de educação são as marcas de uma geração de adolescentes

retirado do blog de Regis Tadeu
jornalista e crítico musical

Caso você não o conheça, vou apresentá-lo. O pianista André Mehmari é um dos maiores pianistas do Brasil atualmente, um músico/arranjador/compositor/multi-instrumentista que tem como principal qualidade, além de sua técnica primorosa, o trânsito fácil e livre que consegue estabelecer entre os universos da música erudita e da música popular brasileira e o jazz. Ele chegou a vencer um Prêmio Visa de MPB Instrumental e vários concursos de composição erudita, já tocou ao lado de grandes cantoras como Ná Ozzetti e Mônica Salmaso, e tem seis discos lançados, todos excelentes. Você pode assistir abaixo dois exemplos desta competência instrumental:

Bem, feitas as apresentações, vamos ao motivo que me levou a escrever a respeito dele hoje, mais precisamente, a uma terrível experiência pela qual ele passou e que dá bem a medida dos tempos em que vivemos hoje. Peço permissão para colocar abaixo o texto que ele escreveu em sua página no Facebook. Leia com atenção, por favor...

“Há uns dias participei como convidado especial de um projeto musical educacional, para jovens de escolas públicas, de 10 a 12 anos, aqui perto de São Paulo. Levaram uma ótima banda, fizeram um roteiro bem bolado e caprichado com atores de primeira, e na segunda parte, a pedido da produção, entrei no palco, feliz da vida para falar de (Ernesto) Nazareth e anunciar as canções que se seguiriam.
 
Ao som de berros e injustificáveis vaias irracionais, ouvi toda sorte de grosseria: ‘sai daí, filho da puta!’ ‘Vai tomar no ...!’, Vai se f....!’

Fiquei um tanto cabisbaixo, mas segui quase firme. Com muito orgulho, falei um pouco desta música. Acompanhado por um supermúsico amigo - o percussionista e compositor Caito Marcondes -, toquei desconcentrado e ainda estupefato uma suíte de maxixes ‘nazarethianos’ abraçando uma ária de opera. É, eu queria falar para eles desta coisa bonita da Musica, de não ter fronteiras, a não ser na cabeça de medíocres e preconceituosos.

Mas a fronteira ali estava tão antes de qualquer pensamento, de qualquer diálogo. Tudo tão aquém de qualquer desenvolvimento, que abaixei a cabeça e levei mecanicamente a apresentação até o final, acreditando que se tocasse para um único par de ouvidos férteis naquela plateia de 600 jovens pessoas já teria valido meu esforço, minha confiança na vida. Sei bem que educação é sempre desafio e que o Brasil encontra-se muito longe de ter estrutura e pessoal adequado.

Meu apelo aqui fica para os pais, que acreditam que a educação de um filho se dá na escola. Ela se dá principalmente em casa, neste nível fundamental da formação do caráter de um ser humano. Não coloquem filhos no mundo se não estão aptos e dispostos a dar uma formação cuidadosa e apaixonada a estes novos seres.

E estou farto deste discurso politicamente ‘soft-new-age-correto’ e praticamente inefetivo, de aceitar tudo e botar panos quentes em tudo que um jovem faz e diz. Acredito que ele tem consciência de seus atos e cabe aos mais experientes apontar problemas, olhar esta turma como nossos semelhantes que, em poucos anos, estarão ocupando importantes cargos e funções.

Educação é invariavelmente feita com amor e dedicação e estas são responsabilidades primordiais dos pais, depois da escola e da experiência. De qualquer maneira agradeço a oportunidade de tocar para aqueles jovens, mesmo tendo sofrido agressões que me ofenderam. Sei que aqueles que ouviram saberão me agradecer no futuro. E estarei plenamente recompensado e tranquilo!”

Quem acompanha o que escrevo neste honrado espaço sabe bem o que penso a respeito desta molecada nos dias atuais. Para quem não sabe, vou repetir numa boa: salvo raríssimas exceções, toda uma geração de adolescentes brasileiros se transformou em uma manada de asnos!

É isto mesmo o que você acabou de ler. Sem tintas douradas ou palavras suaves. A realidade nua e crua é exatamente esta. Quem é pai ou mãe sabe exatamente o que quero dizer. Nos dias atuais, professores se transformaram em seres com nervos em frangalhos, com o espírito esgotado e abalado por terem que lidar com pequenos bucéfalos, precocemente empurrados para a vala da ignorância por causa do meio em que vivem, seja a família, os amigos e até mesmo a própria escola.

Meninos e meninas são capazes de sugar o bom humor de quem quer que seja, tão rapidamente quanto as palavras ásperas, os gritos e a violência verbal que emanam de suas bocas sujas e cérebros já necrosados. Conversando com professores, a opinião é unânime: sala de aula é hoje um lugar onde reina a insanidade. Capacidade de cognição e momentos de sensibilidade por parte destes adolescentes é visto como um autêntico milagre de natureza divina. E quero deixar claro: isto não tem nada a ver com classe social e poder aquisitivo! Há uma horda de adolescentes cretinos milionários, ricos, pobres e miseráveis. A burrice e a falta de educação não fazem distinção.

O que aconteceu com o talentoso pianista André Mehmari em um teatro municipal de Campinas, mais precisamente no bairro da Vila Industrial, é sintomático da total falta de educação e bons modos de toda uma geração. Basta dar uma olhada no meu perfil do Twitter para ver a quantidade de ofensas pesadas – e que se multiplicam como moscas – toda vez que escrevo a respeito de ídolos musicais desta garotada sem cérebro. Palavrões cabeludíssimos escritos por meninas que sequer tiveram a sua primeira menstruação e meninos que nem conhecem o significado do termo “punheta”. Dá vontade de fazer vasectomia no dia seguinte...

Infelizmente, a escola não é mais capaz de propiciar aquela camada de civilização que complementava a educação familiar. Basta ver a quantidade de vídeos que inundam o You Tube com cenas de violência contra professores, colegas de classe e funcionários para sacar que toda uma geração de jovens já encara o seu semelhante como um rival, um adversário a ser derrotado de qualquer maneira, nem que seja preciso ir armado para as aulas. O fato de nenhum destes pequeninos monstros não reconhecer a autoridade no ambiente escolar é o retrato inequívoco da falta de autoridade dentro de casa. Não reconhecer isto é negar a existência de qualquer parâmetro de civilidade.

E há outro problema, tão sério quanto este: a superficialidade imediatista que vê sendo imposta a todos nós diariamente pelos meios de comunicação. Em um País que teoricamente prima pela “diversidade”, cada vez mais somos esbofeteados por estratégias de marketing desenfreadas, que tentam nos obrigar a tomar a cerveja “X”, vestir a roupa “Y” e comprar o carro “Z” para que ninguém se sinta... diferente! É o fim da picada!

Precisamos acabar com este papo de que “povo não gosta de cultura e arte”, que vem nivelando a programação das emissoras de TV e rádio a níveis abaixo do rasteiro. Temos que acabar com esta conversa de que “tudo é arte”, disseminada por pseudointelectuais de padaria, que defendem a ideia de que as classes menos favorecidas intelectualmente produzam a sua própria “cultura” e deixem de olhar para o passado ou para outras vertentes de informação e conhecimento. Para estes palhaços com pinta de sociólogos da PUC, tudo bem que isto resulte nos “Naldos”, “Lek Leks” e “quadradinhos de oito” da vida, pois é “cultura de um povo”. Cultura uma ova!

Ah, o nome do tal projeto do qual André participava chama-se Ouvir Para Crescer. Que ironia nauseante, não?

ÚLTIMAS: DILMA LANÇA PAC III (A MISSÃO) SEM CONCLUIR 60% DO PAC I

De acordo com reportagem publicada pelo jornal Folha de S. Paulo de hoje, domingo (03), o governo federal ainda tenta concluir uma de cada quatro obras mais relevantes da primeira versão do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 1). A presidente Dilma Rousseff (PT) deverá anunciar o PAC 3 ainda este mês.

Segundo o periódico, dos 101 projetos destacados pelo Planalto como mais importantes, 27 não foram concluídos e 4 foram abandonados. O programa inicial, lançado em 2007 pelo ex-presidente Lula, previa um total de 1.646 projetos, orçados em R$ 503,9 bilhões. O PAC 2, programa de Dilma de 2011, reuniu empreendimentos não realizados no PAC 1 e estimou um investimento de quase R$ 1 trilhão. Com o passar dos anos, atrasos, contratempos e mudanças nos projetos alteraram o orçamento.




A Folha também destaca que documentos do governo apontam que todas as principais obras da primeira versão do plano consideradas deveriam estar prontas ou em operação em 2014. Entre elas, estão a usina hidrelétrica de Belo Monte, a transposição do Rio São Francisco e a refinaria Abreu e Lima (em Pernambuco), todos em andamento.

Fonte: UOL

4 anos enganando o povo com essas obras populescas que só servem para desvio de verbas e cabides de empregos para preguiçosos incompetentes. Esse é o Brasil de Dilma, não o meu. Em outubro daremos a resposta. FORA DILMA!


27 de jul de 2014

MÚSICA: O TERÇO

O Terço
Criaturas da Noite
Underground/Copacabana, 1975



O Terço foi formado no final da década de 60 no Rio de Janeiro. Permanecendo obscuramente no undergroud até hoje, boa parte daqueles de pouca idade que estão começando a adestrar seus ouvidos para a boa música, assim como a maioria daqueles que já maduros, desconhecem essa grande banda nacional. Formado para essa gravação por Sérgio Hinds [vocal, viola e vocal], Flávio Venturini(!) [piano, teclados e vocal], Sérgio Magrão [baixo e vocal] e Luiz Moreno [percussão e vocal], a banda emanava um afiado rock progressivo com influências de Pink Floyd, Emerson Lake and Palmer, Rush, etc.  


Surgida num momento histórico em que músicos sofriam muito mais que hoje para exercer seus dons porém em contraste, uma época infinitamente mais produtiva culturalmente; derrotando adversidades, O Terço cravou sua arte na história brasileira através de sus músicas inovadoras, tanto para os garotos da época quanto para os de hoje, se por acaso se interessassem por música boa. Juntamente com O Peso, Módulo 1000, 14 Bis, Patrulha do Espaço entre outras bandas, O Terço fez reverberar ótimas canções nos primórdios mais que esquecidos do rock nacional. Nesse tocante vale um adendo: para a "grande mídia" [e consequentemente para os `rockeiros´ mais alienados] o rock nacional começou e terminou nos anos 80, creio eu para fazer jus a fama de que brasileiro não tem memória. Acontece que eu tenho memória, apesar de não ter acompanhado esse movimento artístico fora de série já que minha idade não permitiria, infelizmente, o que li sobre as bandas e as músicas que escutei fixaram nos sulcos de meu cérebro mais algumas lembranças de um tempo que não vivi, mas sento falta. O rock nacional é tão velho que os temas que os "rebeldes" de Brasília [filhos de diplomatas e endinheirados] abordavam, já tinham sido trazido à tona de maneira ainda mais sutil e visceral, porém com mais técnica e menos raiva descontrolada por esse pessoal "das antigas". Contudo, convenhamos que a necessidade quase que fisiológica de urgência em tudo na vida que os jovens tem orgulho de exibir, é motivo de grandes artistas se percam no tempo, sem público. 

Esse é o terceiro álbum da banda, e para muitos o melhor. Não é a toa que os caras continuam na ativa divulgando um dvd gavado em 2012 onde eles tocam esse disco na íntegra, afinal aqui estão reunidas as melhores características do rock progressivo d´O Terço. O álbum abre com Hey Amigo, um hard rock matador com riff pesada, órgão marcante e bateria cadenciada, tudo isso para proporcionar um belo pano de fundo para que os vocais dobrados e muito bem afinados se sobressaíssem.  Na segunda faixa, Queimada, os violões e violas dominam as harmonias, criando uma atmosfera de rock rural, onde é possível em alguns momentos, até ouvir o estalar da fogueira queimando...

Em Pano de Fundo, os riffs e os teclados viajantes voltam à tona para ditar o rumo, dessa vez numa levada de percussão funk, porém alternada com com vocais e letras psicodélicas. Em Ponto Final, quem dita o ritmo inicial é um belíssimo tema de piano que lembra muito Radiohead, ou melhor, Radiohead que lembra muito O Terço. Os solos de órgão, acompanhado por uma guitarra minimalista e uma percussão por demais criativa, levam o ouvinte para lugares remotos, etéreos, onde por mais que se esteja só, a sensação de conforto e relaxamento é durável. Em Volta A Próxima Semana, o rock dita o ritmo para que a letra ácida encontre os ares que a levarão para próximo ouvidos: guitarra e teclado em consonância enquanto o vocal oferece excepcional performance.

A faixa título detém os melhores arranjos do disco assim como uma letra condizente com a proposta do disco. Os violinos preenchem os arranjos não de maneira pedante como a maioria, mas sim de modo contido mas não menos apreciado. Caminhando para os minutos finais, apresentando duas últimas canções que não possuem já o mesmo brilhantismo, o disco caminha para o fim, destilando temas de piano, órgão e riffs muito bem trabalhados. Hoje senhores, esses homens deveriam ser muito bem reconhecidos pela sociedade uma vez que a qualidade de sua arte, é muito superior a tudo que se faz desde 10 anos atrás.

Walter A.
wjr_stoner@hotmail.co, / facebook.com/walterblogTM

26 de jul de 2014

FILOSOFIA: Heidegger e a filosofia nos bastidores

retirado do blog charlezine.com.br nos apresentado por Traum Bendict

Martin Heidegger
Enquanto procurava por uma informação bem específica sobre a ontologia de Heidegger na internet, achei esse texto por acaso e não consegui parar de lê-lo. Decidi compartilhá-lo com vocês porque ele revela aspectos curiosos dos bastidores da vida intelectual no campo da filosofia – pelo menos no século passado.
O texto a seguir está disponível no site Hottopos, cujos editores procuraram manter o estilo oral da conferência do filósofo espanhol Julián Marías (1914-2005), proferida durante o curso “Los estilos de la Filosofía”, que foi ministrado no semestre de verão 1999/2000, na Universidade de Madrid, na Espanha. Na conferência, Marías, que era considerado o principal discípulo de José Ortega y Gasset (1883-1955), fala sobre Martin Heidegger (1889-1976), seu contato com a obra do filósofo alemão e da ocasião em que o encontrou certa vez. Faz-se menção também a outro filósofo espanhol: Miguel de Unamuno (1864-1936). O texto é útil porque revela, nesse caso específico, o modo como um filósofo lê, interpreta e se apropria da obra de outro filósofo.
NOTA: O autor da conferência, Julián Marías, não se vale de texto escrito.
Edição: Jean Lauand. Tradução: Sylvio Horta.
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Boa tarde!
Já estamos terminando este curso; só nos restam esta conferência e a próxima. Hoje vamos falar de uma personalidade particularmente importante: Heidegger. Heidegger é, evidentemente, um dos maiores filósofos de nosso tempo. Tive a oportunidade de conviver com ele em certa ocasião como recordarei mais adiante. Heidegger passou a ser conhecido no ano de 1927: publicou o livro Sein und ZeitSer e Tempo, que teve imediata repercussão. Ortega leu o livro imediatamente e, na edição de fevereiro de 1928 da Revista do Ocidente, ao final de um artigo que escreveu, dizia em nota de pé de página: “Sobre estes temas, finas verdades e finos erros no recente livro de Martin Heidegger: Sein und Zeit“. Quer dizer: ele tinha lido o livro com grande interesse, logo após a sua publicação.
Outro fato curioso é que não se encontra nenhuma referência a esse livro na obra de Unamuno. As conexões entre Unamuno e Heidegger são bastante claras: há muitas semelhanças entre os dois pensadores. Surpreendeu-me muito que em Unamuno não houvesse nenhuma só alusão à obra de Heidegger. Isto me pareceu bastante estranho e demorei muitos anos para atinar com a razão deste fato: Unamuno não cita Heidegger e parece não conhecê-lo – nem pouco nem muito – simplesmente porque estava na França. Se estivesse em Salamanca, como lhe era habitual, teria sabido da publicação de Sein und Zeit, tê-lo-ia pedido imediatamente, tê-lo-ia devorado e com certeza, tê-lo-ia comentado. Mas na França este livro não despertou eco algum: ninguém – ou quase ninguém – sabia que existia esse livro nem que significado poderia ter. E isso explica a ausência total de referências a Heidegger em Unamuno.
Isto nos remete a outra experiência curiosa, ocorrida também naqueles 10 dias de convivência que tive com Heidegger em 1955. Numa daquelas longas conversas que tivemos, ocorreu-me falar-lhe de Unamuno e perguntar sobre ele. Parecia-me muito plausível que o houvesse conhecido: tinha sido muito traduzido ao alemão nos anos 1920. Contudo, Heidegger disse-me que não o conhecia, que não havia lido nada dele, mas que lera García Lorca [poeta e dramaturgo espanhol]. Isso me surpreendeu bastante, porque a distância entre Lorca e Heidegger é imensa! Isso me leva a pensar em como funciona o mundo atual, em como afinal se conhecem  as coisas de que se fala. É evidente que por razões políticas, que deram grande fama a Lorca desde 1936 com a guerra civil espanhola, sua obra chegou ao conhecimento de Heidegger, que o leu com interesse. Mas é claro que enquanto parece quase obrigatório o conhecimento de Unamuno por Heidegger, não parece necessário o conhecimento de Lorca: e assim caminha o mundo de hoje… A ausência de um e a presença do outro. A ausência mútua de Heidegger e Unamuno é um fenômeno que requer explicação e que evidentemente revela uma faceta da vida intelectual do nosso tempo.
Eu li Heidegger já em 1934 – e isto parece tão incrível que se não fosse evidente eu mesmo o colocaria em dúvida. Eu me reunia com umas quantas colegas, companheiras de curso, para lhes dar aulas sobre certos temas bastante gerais de filosofia já que eu estava um pouco mais avançado nos estudos filosóficos e elas tinham que se preparar para um exame chamado intermediário e não havia cursos gerais de filosofia, mas somente cursos puramente monográficos. E isso durou 2 anos, com 2 grupos, e elas prestaram o exame com surpreendente sucesso, porque tinham encontrado naqueles meus cursos improvisados o que necessitavam para passar no exame.
Ao final do curso, informal, puramente entre amigos, essas jovens – acho que eram 12 ou 14 - deram-me dois livros. Na escolha dos livros percebia-se claramente a mão de Ortega: Sein und Zeit de Heidegger e a Ética de Nicolai Hartmann. Fui bolsista naquele ano na Universidade deSantander, que se chamava então Universidade Internacional de Verão Santander – que não era, naturalmente, Universidade Menéndez Pelayo, ainda não se chamava assim, o que só veio a acontecer muitos anos depois – e levei o livro de Heidegger, junto com o dicionário alemão Langenscheidt. Eu ficava num quarto e passava horas e horas com o livro de Heidegger e o dicionário. Nem é preciso dizer que Heidegger ainda não estava traduzido para nenhuma língua; quer dizer, só se podia ler Heidegger em alemão. E parecia-me que só se podia lê-lo em alemão, porque as pouquíssimas traduções – muito fragmentárias – que havia, eu não as entendia, nem as entendo ainda hoje. Entendo Heidegger apenas em alemão; na tradução, não entendo absolutamente nada. Há uma tradução de meu mestre, professor queridíssimo, José Gaos, que o traduziu muitos anos depois, mas eu também não a entendo.
A dificuldade do alemão de Heidegger é especial. O alemão não é uma língua fácil, mas além disso o alemão filosófico tem certas dificuldades e, no caso de Heidegger, as tem em grau superlativo. Porque Heidegger escreve não em alemão, mas no seu alemão particular. Ele até acreditava – eu acho que é um erro, mas enfim ele pensava deste modo – que a filosofia só pode ser escrita em duas línguas: grego e alemão. Eu acho que não: creio que é um erro e até um erro grave de Heidegger. Acredito que a filosofia se pode… (ia dizer se pode escrever em qualquer língua, mas tampouco acredito nisso: poder-se-ia fazer um catálogo de línguas nas quais não se pode fazer filosofia; mas, em muitas, certamente, isto é possível). E nas grandes línguas europeias, das  quais tenho alguma ideia; e de outras, das quais não tenho nenhuma ideia, estou certo de que se pode fazer filosofia.
Além disso, o alemão de Heidegger é um alemão muito pessoal; um alemão no qual ele introduz uma enorme quantidade de variantes, de modificações. Há uma seleção de vocabulário muito rigorosa. Emprega também alguns artifícios que o tornam particularmente difícil. Por exemplo, emprega frequentemente dupla clave, quer dizer, usa a palavra alemã, de origem alemã, mas também vale-se da palavra de origem latina, com um sentido diferente. Por exemplo, aparece a todo momento – e trata-se do contexto capital da sua filosofia – a idéia de dasein. Dasein é um verbo que significa existir e naturalmente é também o substantivo “existência”. A palavra Dasein se traduz, naturalmente, por “existência”; esta é a tradução normal. Mas há um momento em que Heidegger define dasein e diz: “Das Wesen des Daseins liegt in seiner Existenz”, que se se traduz literalmente: “A essência do Dasein consiste em sua existência”. Ou seja, resulta em uma tautologia. Eu propus uma tradução que pelo menos não é uma tautologia. Como “existir” é um verbo infinitivo e o espanhol – assim como o alemão – admite o infinitivo substantivado, que se converte em substantivo, então traduzo: “A essência do existir consiste em sua existência”. Não é totalmente claro, mas tampouco é uma tautologia. De modo que esta é uma tradução possível, que me parece melhor do que a tautológica: “A essência da existência é sua existência”.
E há muitas coisas mais. Por exemplo, no alemão, as palavras vão acompanhadas frequentemente de prefixos ou de sufixos, que modificam o sentido. Por exemplo: a palavra “perguntar” se diz em alemão “fragen“; mas existem os verbos compostos: “anfragen“, que é “perguntar a”; “befragen“, que é perguntar em sentido transitivo, ou seja, simplesmente perguntar algo; “erfragen“, perguntar em um sentido originário… Naturalmente, isto em espanhol não tem muito sentido porque – ao contrário do alemão – não distinguimos  “befragen“, “erfragen“, “anfragen“. Há também sufixos que alteram o sentido das palavras. Por exemplo, a palavra Zeit significa tempo e zeitlich é temporal; mas também há zeitig - outro sufixo – ou zeitmässig, adequado ao tempo. No alemão isto se entende quando Heidegger dá um valor particular a estas formas; mas em espanhol, não. Quando Gaos traduziu Sein und Zeit, ele inventou, forjou alguns adjetivos como: temporal, temporâneo, temporáceo, temporoso… Eu me pergunto: O que quer dizer isso em nossa língua? Pode-se até definir estas palavras, pode-se explicar o que se entende por temporáceo ou temporoso, mas por si mesmas essas palavras não têm significado algum. Como podem ver, as dificuldades são consideráveis e em última análise encontra-se uma série de expressões que não chegam a ter um sentido determinado. E isso acrescenta dificuldades muito grandes à leitura de Heidegger em qualquer língua.
Há além disso outro problema: a dificuldade de se traduzir as frases mais importantes de Heidegger. Há uma frase famosíssima, citada mil vezes, segundo a qual, diz Heidegger, que o homem é sein zum Tod, que se traduz invariavelmente como “ser para a morte”. O único problema é que isto não quer dizer no alemão “ser para a morte”; porque a palavra sein, que quer dizer certamente “ser”, significa também outras coisas como “estar”; os alemães não dizem “estar” porque não têm o verbo “estar”. Costumo dizer que dariam uma das poucas províncias que lhes restam em troca dos verbos serestar e haver, três maravilhosos verbos para fazer filosofia. Mas, claro, ser é ser ou estar. Os livros de gramática – em geral – dizem que “ser” é o essencial, o fundamental, o permanente, enquanto que “estar” é o passageiro, o transitório, ou que se trata de um estado momentâneo. Eu me pergunto se quando rezamos o Pai Nosso e dizemos: “Pai nosso, que estás no céu…”, queremos dizer que Deus está lá passando as férias. Parece-me que não: se há algo permanente para a teologia cristã é justamente esse estar no céu. Como podem ver, “estar” tem um sentido radical, real, muito real.
Eu tenho feito uma observação empírica, sem maior importância, mas que é bastante iluminadora: quando se diz a uma mulher que ela é muito bonita, ela agradece, mas agradecerá mais ainda se lhe disserem que está muito bonita: ao lhe dizer que “é muito bonita”, elogia-se a sua beleza, a sua qualidade estética; mas quando se diz a uma mulher “você está muito bonita”, isso significa que “estou me deparando com o fato de que você é realmente muito bonita”, o qual é algo concreto, real, eficaz. Por outro lado, a preposição zu não quer dizer “para”, mas “a”. Isto é, a expressão “sein zum Tod“, poderia ser traduzida por “estar à morte [estar a la muerte]“. Qual é a condição dos homens não somente quando nos atropela um caminhão ou quando temos pneumonia dupla? O homem está à morte sempre, está na possibilidade de morrer, está em potência próxima de morrer, está exposto à morte: e é isso justamente o que quer dizer “sein zum Tod“, estar aberto à morte, estar nessa possibilidade próxima, real, eficaz. Quero dizer portanto que a tradução, que me parece incorreta, de “sein zum Tod” como “ser para a morte” deve-se não tanto a que o tradutor não saiba bem o alemão, mas que não sabe bem espanhol: o que é muito mais grave.
Essas dificuldades rondam naturalmente a obra de Heidegger, afetando sua compreensão. Como a obra de Heidegger é muito densa, muito complexa, extremamente original, atinge um nível profundíssimo de intelecção e de conceituação, isso significa que a intelecção de Heidegger é bastante problemática e sempre exige muito esforço. Além do mais, Heidegger formula que a tarefa de sua filosofia é a de descobrir der Sinn der Seins überhaupt, o sentido do ser em geral. Ele trata de determinar o que quer dizer “ser” e faz uma distinção – que é válida para algumas línguas e para outras não – entre Seiendes sein; a distinção de sempre: on/einai em grego, ens/esse em latim, ente (particípio de presente) e ser (infinitivo). No alemão, latim e grego se distinguem bem, assim como nas línguas procedentes do latim essa distinção é também bastante natural. É curioso que em francês não havia isso: chamava-se igualmente être ao ente e ao verbo ser. E é interessante notar que por influência de Heidegger, quando se introduziu a terminologia que lhe é própria, foi necessário introduzir uma palavra em francês para dizer “ente”: étant, que é um particípio presente construído sobre o verbo être. Esse uso hoje é normal e há, por exemplo, livros de filosofia em francês que se chamam L’être et les étants.
Como podem ver, há problemas muito delicados. Heidegger leva muito a sério isso e inclusive faz uma distinção que me parece um pouco duvidosa: ele diferencia entre o que ele denomina ôntico e ontológico, distinção bastante curiosa e que nunca chega a ser totalmente clara. Porque ôntico é o que se refere aos entes, às diferentes formas de entes; o que se refere ao ser é o que ele irá chamar de ontológico (inclusive há um momento em que fala do que é ôntico-ontológico). Vejam, portanto, como há uma grande dificuldade conceitual ao se querer penetrar a fundo no pensamento de Heidegger. Mas o que tem de mais original, de mais criador, é precisamente que ele desce a um nível muito profundo, mais profundo que qualquer filósofo contemporâneo, sem dúvida nenhuma, e então ele aponta o que é o problema fundamental da filosofia: o sentido do ser em geral.
Ele trata de entender o que quer dizer a palavra “ser” em geral, isto é, em todos os sentidos, mas - e aí está a grande descoberta de Heidegger – a abordagem do problema do ser depende precisamente do problema do Dasein, do problema do existir, porque justamente o nível, diríamos, em que se aborda o problema do ser é o problema do Dasein, o problema – diríamos – da pessoa. A pessoa que é cada um, cada um de nós, esse ente que somos nós. Não é o homem, porque se falamos de homem, falamos de antropologia e aqui se fala precisamente da estrutura da própria realidade; justamente o que chamamos o ser, a pessoa. E isso é o que suscita o problema do ser em geral, que se expõe precisamente ao analisar o Dasein, ao analisar esse gemeines, esse cada um de nós, que somos e que tem um tipo de realidade novo, completamente distinto, que é o que será chamado de existencial. A palavra “existencial” é introduzida por Heidegger, seguindo afinal Kierkgaard, mas é uma expressão que também não é inteiramente clara, porque justamente quando passamos ao ôntico, ao que não é ontológico, já se perde este sentido: há certos resquícios de inexatidão, de imprecisão terminológica.
Evidentemente, Heidegger chega a uma análise de enorme profundidade. Essa realidade a que chamamos Dasein, que é cada um de nós, essa realidade pessoal, é uma realidade temporal, afetada pela temporalidade, condicionada pela temporalidade – não se esqueçam do título do livro: “Ser e Tempo” – e portanto há toda uma série de categorias, categorias que precisamente são as que vão delinear a realidade nos diferentes aspectos. Ele distinguirá por exemplo entre o que é existente – o que é vorhanden - e o que é zuhanden, o que está à mão, aquilo que nós manejamos e está à mão. O que existe, o que está presente é vorhanden, o que está a frente, a frente da mão; mas zuhanden é aquilo que está à mão. Quer dizer, elabora uma complexíssima ontologia das diferentes realidades, que vai desde as coisas exteriores, as coisas que integram o mundo, as coisas físicas, até justamente o mais profundo da pessoa. Como podem ver, portanto, a compreensão do pensamento heideggeriano é enormemente complicada e desce a níveis muito profundos: fala de vida autêntica e de vida inautêntica; do que é o cotidiano e do que não é cotidiano; o que ele chama de Zuhandenheit… e todos os outros conceitos que devem ser elucidados pela linguística: não que eu queira ser pedante, mas não é possível não ser. A compreensão de Heidegger levanta problemas gravíssimos; problemas, principalmente para ele: como se pode comunicar o pensamento de Heidegger? Como se pode estar certo de compreendê-lo adequadamente?
Lembro-me de que nessa reunião no Château de Cerisy, na Normandia, ele deu uma breve conferência introdutória – “O que é isto, a filosofia?” (Was ist das – die Philosophie?) - e então pediu a 4 dos participantes – Gabriel Marcel, Paul Ricoeur, Lucien Goldmann e eu – que fizéssemos quatro contra-conferências, que abordassem o problema geral a partir de nosso ponto de vista pessoal, indicando as coincidências, as divergências, as discrepâncias, para apresentar 4 visões da questão fundamental proposta por ele em sua conferência inicial. E depois tivemos 3 seminários: um sobre Kant, outro sobre Hegel e outro sobre o grande poeta Hölderlin, que para ele era algo capital. E umas reuniões, diríamos, já de colóquio geral, interessantíssimas, para as quais chamei a atenção num texto que publiquei pouco depois: “A Oficina de Heidegger”. Nela os conceitos eram analisados, desmontados, procurados; buscava-se chegar ao fundo, com dificuldades consideráveis.
Ele era um homem tímido e disse: “Sou muito tímido porque sou filho de camponeses”. Era de fato um homem simples (ia dizer que tinha “os olhos de um homem astuto”, como no verso de Antonio Machado; tinha uma atitude de certo modo receosa, cauta, de homem do campo…). Ele vinha vestido como todo mundo, mas um dia colocou uma jaqueta esverdeada – traje típico da Floresta Negra – e foi algo apaixonante ver Heidegger analisando os conceitos, com essa simplicidade, entrando na discussão, sem entender direito o que lhe diziam a menos que fosse em alemão. Havia uma convenção: Heidegger falaria em alemão e os outros falarariam entre si e a ele em francês. Supunha-se que isso iria dar certo; mas reparei que quando lhe falavam em francês, ele não entendia. Não é que não entendesse o francês; é que não entendia o que lhe era dito em francês. E passados alguns dias eu cansei e me dirigi a ele em alemão e, aí sim, ele entendia.
Como vêem, era uma experiência humana, intelectual, realmente apaixonante estar na oficina de Heidegger. Por 10 dias estivemos falando de tudo: foi algo inesquecível e estou certo de que os que passaram aqueles dias em Cerisy tiveram uma impressão duradoura, que não se poderá nunca esquecer. Surgiram as questões mais profundas: a clave da comunicação, como se pode comunicar esse pensamento noutras línguas. Ele nunca respondeu claramente sobre isso. Recordo-me de que Gabriel Marcel lhe perguntou sobre isso com bastante seriedade, mas ele afinal desentendia-se da questão de como se pode expressar essa filosofia em outras línguas: isto não ficou nunca claro. Evidentemente, a marca do pensamento heideggeriano permaneceu em nós e foi algo muito importante. Creio que esta experiência – tal como acabo de contar – com sua incoerência, com suas obscuridades, com suas vacilações, que requereriam uma larga reflexão posterior, na solidão da casa de cada um, com os textos de Heidegger e outros, foi algo absolutamente inesquecível e deixou uma marca muito profunda.

22 de jul de 2014

ASSASSINOS DA INTELIGÊNCIA

por Olavo de Carvalho
filósofo e jornalista 
www.olavodecarvalho.org

Pensar, até um burro pensa. O que distingue a espécie humana é sua capacidade de confrontar o pensado com o conjunto dos conhecimentos disponíveis e regular o curso do pensamento pela escala de credibilidade que vai do possível ao verossímil, ao provável ou razoável e, em certos casos, à certeza.

Aristóteles já ensinava isso.

Infelizmente, no Brasil, raros opinadores têm o senso dessas distinções. A maioria imagina que para pensar com proveito basta um pouco de lógica formal e algum domínio dos chavões mais caros ao coraçãozinho da plateia.

Em debate recente, o professor Igor Fuser, uma estrela do "cast" universitário esquerdista, assegurou que "não se pode julgar um regime pelo número das suas vítimas". Dez minutos depois, desmentia-se fragorosamente ao alegar que a ditadura brasileira "perseguiu milhares de pessoas" e que o número de cristãos assassinados no mundo está muito abaixo dos 100 mil por ano –subentendendo, portanto, que a ditadura foi um horror e que os matadores de cristãos nos países islâmicos e comunistas não são tão maus quanto se diz.

Mas o pior não é isso. Mesmo sem esses autodesmentidos grotescos, a afirmativa geral que os antecedeu –a mais comumente alegada por devotos comunistas empenhados em salvar a honra dos governos mais assassinos que o mundo já conheceu– é perfeitamente desprovida de sentido. Para perceber isso basta medi-la com a escala de credibilidade.

Em política, admite-se universalmente, as certezas absolutas são raras ou inexistentes. O meramente possível reflete a liberdade da fantasia, o verossímil é apenas questão de opinião, gosto ou preferência. Não servem como argumentos. Resta a probabilidade razoável. Quem quer que argumente seriamente em política procura nos convencer de que a razão, com altíssima probabilidade, está do seu lado.

Acontece, para a tristeza dos tagarelas, que todo argumento de probabilidade depende eminentemente do elemento quantitativo que o fundamenta explícita ou implicitamente. Se digo que o candidato X vai vencer as próximas eleições com uma probabilidade de zero a cem por cento, não disse absolutamente nada. Tanto vale dizer que um governo é igualmente malvado se não matou ninguém ou se matou milhões de pessoas.

Quando um comunista esperneia contra o que chama de "contabilidade macabra", tem, é claro, uma boa razão para fazê-lo. Contados os cadáveres, é impossível negar que o comunismo foi o flagelo mais mortífero que já se abateu sobre a humanidade. Diante disso, só resta apegar-se ao subterfúgio insano de que o macabro não reside em fazer cadáveres e sim em contá-los.

Somando à insanidade o fingimento, a proibição de contar tem de ser suspensa quando se fala de regimes "de direita", donde se conclui que os 400 terroristas mortos no regime militar –a maioria deles de armas na mão– são um placar muito mais hediondo e revoltante do que os 100 milhões de civis desarmados que os heróis do comunismo assassinaram na URSS, na China, na Hungria, em Cuba etc.

O senso das quantidades e proporções é a exigência mais básica e incontornável não só da conduta honesta, mas da racionalidade em geral. Dissolvendo-o pouco a pouco na plateia, os fúseres da vida destroem não só a moralidade pública, mas as próprias condições elementares do funcionamento normal da inteligência humana.

Se nas universidades brasileiras há uma quota de 40 a 50% de alunos analfabetos funcionais, isso não se deve só a uma genérica "má qualidade do ensino", mas ao fato de que há décadas o discurso comunista e pró-comunista onipresente espalha, nas mentes dos estudantes, doses maciças de estimulação contraditória e obstáculos cognitivos estupefacientes.

MORRE NO RIO O ESCRITOR E ACADÊMICO JOÃO UBALDO RIBEIRO, AOS 73 ANOS

Morreu de madrugada desta sexta-feira (18), em casa, no Leblon, Zona Sul do Rio, o escritor e acadêmico João Ubaldo Ribeiro, aos 73 anos. Como mostrou o Bom Dia Rio, ele teve uma embolia pulmonar. João Ubaldo era casado e tinha quatro filhos. Inicialmente, o corpo dele seria velado a partir das 10h na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Centro do Rio, mas a cerimônia sofreu atrasos por conta da chegada dos filhos que vieram de outros estados, e acabou sendo adiada para às 12h. Segundo a ABL, o velório acontecia no Salão dos Poetas Românticos e era aberto ao público, até as 19h. A academia decretou luto por três dias.

Várias coroas de flores chegavam à ABL durante toda a manhã, mas o corpo só chegou ao local por volta das 11h30.
De acordo com funcionários do Cemitério São João Batista, em Botafogo, Zona Sul, o sepultamento dele estava previsto para ocorrer às 16h. Por conta das mudanças e da chegada de uma das filhas dele, que mora da Alemanha, o enterro poderá ser adiado para sábado (19).
O escritor era o 7º ocupante da cadeira número 34 da Academia Brasileira de Letras. Ele foi eleito em 7 de outubro de 1993, na sucessão de Carlos Castello Branco. O secretário geral da ABL, Domício Proença Filho, disse Ubaldo era um escritor voltado para o povo brasileiro.
"Ele não vinha sempre, mas quando vinha era uma festa, com aquela voz de barítono, aquela alegria. Ubaldo era um escritor voltado para o povo brasileiro, a realidade brasileira, com a justiça social. Tinha personagens que retratavam bem essa realidade. Tenho certeza que Zecamunista deve estar muito triste hoje", disse Proença.
O presidente da ABL Geraldo Holanda Cavalcante contou que, nos quatro anos de presidência, encontrou com Ubaldo apenas uma vez, por conta de problemas de saúde do escritor.
"Ele deixa uma marca profunda na história do romance, com 'Viva o povo brasileiro' . Só estive com ele uma vez. Mas sei que ele era uma pessoa jovial, alegre, amigo e muito companheiro. Ele revolucionou o romance brasileiro com 'Viva o povo brasileiro' e 'Sargento Getulio'", disse o presidente.
Internado em maio
A secretária Valéria dos Santos, que trabalhou durante dez anos com o escritor, disse que em maio Ubaldo chegou a ser internado durante cinco dias por causa de problemas respiratórios. Segundo ela, o escritor reduziu o cigarro, mas não chegou a parar de fumar como foi orientado pelos médicos.

Valéria contou que há cerca de um ano e meio Ubaldo vinha escrevendo um novo romance, mas que não revelou seu conteúdo. Ele acordava por volta das 5h para se dedicar ao livro e por volta das 10h, parava para atender telefonemas e outras demandas.
"Ele acordou por volta das 3h [nesta madrugada] e chamou a mulher dizendo que estava se sentindo mal. Chamaram uma ambulância e os paramédicos tentaram reanimá-lo, mas ele já estava morto", contou Valéria acrescentando que o cardiologista particular dele também foi chamado.
Trajetória
João Ubaldo Ribeiro ganhou em 2008 o Prêmio Camões, o mais importante da literatura em língua portuguesa. Ele é autor de livros como “Sargento Getúlio”, “O sorriso dos lagartos”, “A casa dos budas ditosos” e “Viva o povo brasileiro”. Também ganhou dois prêmios Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1972 e 1984, respectivamente para o melhor autor e melhor romance do ano, por ‘Sargento Getúlio’ e ‘Viva o povo brasileiro".

Nascido em Itaparica (BA), Ribeiro viveu até os 11 anos com a família em Sergipe, onde o pai era professor e político. Passou um ano em Lisboa e um ano no Rio para, em seguida, se estabelecer em Itaparica, onde viveu aproximadamente sete anos.
João Ubaldo também se formou bacharel em Direito, em 1962, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), mas nunca chegou a advogar. Entre 1990 e 1991, o escritor morou em Berlim, na Alemanha, a convite do Instituto Alemão de Intercâmbio (DAAD – Deutscher Akademischer Austauschdienst).
Ele era pós-graduado em Administração Pública pela UFBA e mestre em Administração Pública e Ciência Política pela Universidade do Sul da Califórnia (USC) .
O escritor foi professor da Escola de Administração e da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia e professor da Escola de Administração da Universidade Católica de Salvador. Como jornalista, trabalhou como repórter, redator, chefe de reportagem e colunista do Jornal da Bahia; foi também colunista, editorialista e editor-chefe da Tribuna da Bahia.
Ribeiro trabalhou como colunista do jornal Frankfurter Rundschau, na Alemanha, e foi colaborador de diversos jornais e revistas no país e no exterior, entre os quais, além dos citados, Diet Zeit (Alemanha), The Times Literary Supplement (Inglaterra), O Jornal (Portugal), Jornal de Letras (Portugal), Folha de S. Paulo, O Globo, O Estado de S. Paulo, A Tarde e muitos outros.
A formação literária de João Ubaldo Ribeiro iniciou ainda nos primeiros anos de estudante. Foi um dos jovens escritores brasileiros que participaram do International Writing Program da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos.Trabalhando na imprensa, pôde também escrever seus livros de ficção e construir uma carreira que o consagrou como romancista, cronista, jornalista e tradutor.
Obras
Os primeiros trabalhos literários de João Ubaldo Ribeiro foram publicados em diversas coletâneas, como “Reunião”, “Panorama do Conto Baiano”. Aos 21 anos de idade, escreveu o seu primeiro livro, “Setembro não tem sentido”, que ele desejava batizar como “A Semana da Pátria”, contra a opinião do editor. O segundo foi “Sargento Getúlio”, de 1971. Em 1974, publicou “Vencecavalo e o Outro Povo”, que por sua vontade se chamaria “A Guerra dos Paranaguás”.

Consagrado como um marco do romance brasileiro moderno, "Sargento Getúlio" filiou o seu autor, segundo a crítica, a uma vertente literária que sintetiza o melhor dos escritores Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. A história é temperada com a cultura e os costumes do Nordeste brasileiro e, em particular, dos sergipanos. Esse regionalismo extremamente rico e fiel dificultou a versão do romance para o inglês, obrigando o próprio autor a fazer esse trabalho. A seu respeito pronunciaram-se, nos Estados Unidos e na França, as colunas literárias de todos os grandes jornais e revistas.
Em 1999, foi um dos escritores escolhidos em todo o mundo para dar depoimento, ao jornal francês Libération, sobre o Terceiro Milênio. E Viva o Povo Brasileiro foi o tema do exame de Agrégation, concurso para detentores de diploma de graduação na universidade francesa. Este romance e "Sargento Getúlio" constaram da maior parte das listas dos cem melhores romances brasileiros do século.
 Prêmios
- Prêmio Golfinho de Ouro, do Estado do Rio de Janeiro, conferido, em 1971, pelo romance Sargento Getúlio;
- Dois prêmios Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1972 e 1984, respectivamente para o Melhor Autor e Melhor Romance do Ano, pelo romances Sargento Getúlio e Viva o povo brasileiro;
- Prêmio Altamente Recomendável - Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil,1983, para Vida e Paixão de Pandonar, o Cruel ;
- Prêmio Anna Seghers, em 1996 (Mogúncia, Alemanha);
- Prêmio Die Blaue Brillenschlange (Zurique, Suíça);
- Detém a cátedra de Poetik Dozentur na Universidade de Tubigem, Alemanha (1996).
- Prêmio Lifetime Achievement Award, em 2006;
- Prêmio Camões, em 2008.

Fonte: G1

21 de jul de 2014

EDITORIAL: a derrota se anunciava desde o Hino Nacional

Esse tema vem guardado a algum tempo, aguardando momento oportuno para ser escrito. E não há melhor momento que esse: a ressaca do porre de realidade que se abate sobre nós brasileiros após a Copa do Mundo da FIFA 2014. Tentei de várias maneiras abstrair-me e manter distância desse malfadado evento esportivo. Confesso que não consegui; assisti a vários jogos. Nos jogos da seleção nacional a reunião familiar era grande e intensa onde eu, por vezes quase consegui tocar a paixão que emanava daquelas pessoas compenetradas naquelas disputas de cartas marcadas. Confesso também que mesmo torcendo para que o Brasil perdesse, ficava nervoso quando o time brasileiro sofria ataques. Era latente que meu subconsciente estava torcendo à favor, enquanto meu consciente torcia contra [motivos mais à adiante] e isso me fazia tremer em certos momentos mais contundentes das partidas.

Como disse acima, torci contra a seleção. Sei que muitos ignorantes deixarão de ler aqui o texto ao mesmo tempo que me cobrem de impropérios. Mas se você continua interessado no que tenho a dizer, agradeço a atenção ao passo que exponho os motivos que causaram essa dualidade oposta [torcer / não-torcer]: o primeiro momento que me fez alertar foi o choro de alegria [hoje vejo que pelos rios de dinheiro que escoariam para os bolsos enlameados com a mais pura corrupção] do então presidente da república Lula há mais ou menos 10 anos atrás. Assim como a maioria dos pensadores brasileiros, achava eu que o país detinha tantos mais problemas urgentes, que esse negócio de copa era coisa a ser pensada e questionada somente depois, afinal o futuro ainda encontrava-se longe do alcance da imaginação e as promessas era que a iniciativa privada ficaria à cargo do capital de investimento...



Lula saiu podre de rico assim como seu filho, que de reles programador assalariado hoje é grande acionista da Oi e da Friboi; de herança nos deixou Dilma que desandou o que já estava ruim uma vez que, assim como seu mentor 9 dedos, governa para um partido e não para o país muito menos para o povo. E como bons brasileiros, deixamos para prestar atenção na tal da copa em cima da hora. Só aos 45 do segundo tempo percebemos que quem estava pagando tudo, incluindo os 12 estádios bilionários e seus respectivos superfaturamentos [que darão retorno apenas para poucos e muito bem escolhidos bolsos aveludados], eramos nós. E com um plus: um gigantesco nariz de palhaço imaginário, porém não menos real.



Nosso país vive à deriva nos sentidos cultural, político e social. Se nossas instituições não funcionam, matam-se 50 mil brasileiros por ano, nossas crianças alienadas e distantes da realidade inteligível desde que conseguem apresentar os primeiros sinais de desenvolvimento cognitivo, se nós adultos nos encontramos voluntariamente presos em vaidades egocêntricas, entregues à corrupção da carne e da alma servindo de engrenagem para um sistema brutal comandando por bilionários dentro da política, indústria, meios de comunicação, enfim do Estado em seus diversos segmentos, a culpa é minha. A culpa é sua. É para isso que servimos então? Para que trabalhamos? Acordamos e dedicamos nossas melhores horas do dia ao ganha-pão diário apenas para adquirir bens materiais, em sua maioria supérfluos para nossa sobrevivência enquanto milhões morrem ou vivem de maneira degradante sem conhecimento nenhum sobre nada? Devemos ser coniventes com a vida sem dignidade? Não. Temos que assumir nossa parte na guerra contra o mal. Seja na linha de frente, seja na retaguarda ou na inteligência. 

Além da visão fisicamente palpável através dos olhos, o ser humano é dotado de uma visão mental, que alguns estudiosos atribuem a uma maior capacidade de percepção da realidade ao seu redor. Portanto, dada a diversidade da natureza na qual a espécie humana é parte, é lícito partir do pressuposto que algumas pessoas possuem um maior alcance de percepção do que outras, nada impedindo que estes possam, através de informações, vislumbrar a mesma realidade. Eu inclusive, não que isso importe a quem quer que seja, me considero uma pessoa de percepção média, porém de uma curiosidade alta, compensando as deficiências com leitura e reflexão.



Leitura e reflexão. Se apenas atividades abstratas para a uns, para a maioria é ainda mais evanescente, no mais, é coisa de viado. Graças a insistência de seres pensantes notáveis que naturalmente não deram ouvidos ao senso comum das pessoas da época e trilharam caminhos inovadores, a humanidade conseguiu estabelecer a ordem em grande parte do mundo. Com o estabelecimento dessa ordem, as disputas passaram a ser no campo desportivo e o futebol sempre se destacou por ser um esporte de popularidade considerável em vários países do mundo, em todos os continentes. O futebol atual, com um campo pintado, com regras escritas foi forjado pelos ingleses, porém desde os povos maias, incas e astecas que se jogava uma espécie de `futebol´ num descampado possuído de traves de madeira não tão grandes quanto as atuais e, usando como bola cabeças de inimigos. Macabro. Futebol sempre foi algo que envolveu poder e sangue; que o diga o zagueiro colombiano Andrés Escobar morto a tiros semanas depois de fazer um gol contra na copa do mundo de 1994... 


Por isso que o futebol é um sucesso mundial: a maioria de nossos antepassados, já jogaram algo parecido com futebol numa época em que significava mais sangue e mais poder que hoje. Está gravado em nosso subconsciente em auto-relevo. Durante a Copa das Confederações, foi que comecei a me pegar matutando sobre o assunto. Hospitais em frangalhos, escolas desabando, estradas carcomidas pelas intempéries e auxiliadas pelo uso de material ruim na construção [e nós não estamos na faixa de Gaza, aparentemente] e ninguém, muito menos os ministérios públicos da vida, demonstram menor sinal de preocupação mas idolatram, falam, rezam, realizam promessas e até sucumbem à melancolia quando a vitória não vem comecei a perceber que a seleção que nesse momento desperta tanta admiração e idolatria para com os jogadores serve apenas para render milhões para grandes companhias dos mais variados setores [da indústria, comércio, serviço] e para os jogadores individualmente falando... Vivenciar tanta desgraça e perceber que quase ninguém estava preocupado em fazer algo para mudar a si e  a realidade ao redor, ao passo que os nossos "representantes" de Brasília estão, popularmente falando: cagando e andando para o país, abate qualquer pensamento positivo de buscar mudanças.


Na rebarba da sipuada, sobra até para os mortais jornalistas, narradores, radialistas, comentaristas e etc. que ganham a vida analisando essa grande farsa. Depois do choro de crocodilo de Lula, outro fato que me comoveu a torcer contra para que nosso povo se desprendesse de subterfúgios de baixa cultura como por exemplo esse esporte manipulado em sua maioria das vezes, foi a falta de conhecimento do hino nacional. Percebi durante a copa das confederações que boa parte dos jogadores não sabiam cantar o hino e ficavam numa embromação asquerosa que beira o cúmulo da pior dublagem mexicana. Como querer elevar um time de futebol a representante da República do Brasil, sem que o país e o time entrassem em concordância pelo menos no hino? Talvez se fosse um funk, um pagode, um sertanejo-universitário todos cantassem em uníssono e no mesmo tempo?!



Ser patriota naqueles dias era torcer para seleção de futebol. Isso me deixava inquieto por dentro, ainda mais quando o governo começou a tirar proveito da situação. Era muita baixeza. Auxiliado pela Globo, o governo federal praticamente "apadrinhou" a seleção e a tomou como exemplo do uma ótima gestão a realização da copa e que iria ganhá-la, simplesmente porque queria ganhá-la. Porém não se ganha copa nem muito menos se governa um país sem planejamento isento de roubos e desvios. Durante o evento esportivo, foi ficando cada vez mais óbvio que realmente o governo tinha muito haver com o time da CBF, pois não tinha comando além de exalar um individualismo altamente nocivo para um esporte coletivo como o futebol, isso sem citar analogias às irregularidades escabrosas feitas por João Havelange, Ricardo Teixeira, José Maria Marin, assim como o país é governado a anos por Sarney, Renan Calheiros, Lulas da vida, etc.. 


Como não havia mais como distinguir entre time de futebol e país, cheguei a irrisória conclusão: se o time brasileiro perder essa maldita copa, Dilma terá grandes chance de perder as eleições de outubro; Roussef arriscou tudo em propagando estatal mentirosa vendendo uma imagem de eficiente que ruiu como cabana em vendaval com o enorme fracasso da gestão que ela tinha como um braço do governo na vitrine do mundo; boa parcela do povo já começa a perceber que na prática é muito mais marketing e desvio de verbas que qualquer outra coisa. E assim foi feito, aquele desastre que se anunciava desde a execução do hino, loucamente acompanhado pelos bêbados das arquibancadas que cantavam a bancarrotas, atropelando a cadência e uns aos outros e o próprio hino, se consumou na vexatória derrota de 7x1 para a Alemanha que, merecidamente ganhou porque treinou, estudou, leu, se adaptou e conquistou o Brasil, de uma maneira que nem mesmo eu eu você fazemos, vivendo com intempestiva curiosidade nossas raízes mais remotas.


Além do título de melhores de mundo da bola, os germânicos levam consigo o respeito e admiração dos brasileiros, que vivem nesse país do futuro onde o presente parece ser infinito. Mas eles não precisam de nosso reconhecimento, eles é que merecem o nosso pois mesmo derrotados em duas guerras, são a maior economia da Europa, líderes na indústria automobilística, química,médica e engenharia além de exímios filósofos, sendo o país de maior expressão após a Grécia Antiga. Já que não conseguimos nos separar desse time de futebol ao ponto de morrermos abraçados com ele e por ele, que pelo menos agora que estamos de cara no chão sentindo o gosto amargo da derrota, possamos nos envergonhar de perder tão fácil, estudar nossos pontos fracos, reforças as defesas, erguer a cabeça e trabalhar para que alcancemos esse Brasil do futuro. Assim, quem sabe um dia seremos um país sério onde o carnaval seja apenas uma festa comum do ano e não um estilo de vida.

Julho, 2014


Walter A.
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